Em Pauta

Café Literário: entrevista com Tarso de Melo

22 Maio, 2019 19:07
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No Café Literário do mês de maio, contaremos com a presença do autor Tarso de Melo, que, além de escritor, também é advogado e professor.

Confira o bate papo que tivemos com ele:

– Você é advogado, poeta e professor. Como navega nessas diferentes esferas de atuação?

Como você falou em navegar, me lembrei do Paulinho da Viola: “durante o nevoeiro, levo o barco devagar”. Acho que é mais ou menos isso… essas tarefas foram surgindo na minha vida em momentos diferentes. Comecei a gostar de poesia por volta dos 14, 15 anos, e mergulhei profundamente nessa rotina de ler, pesquisar autores, escrever, apagar, reescrever, ir a eventos em que se discutisse poesia. Quando entrei na faculdade, já estava bastante absorvido por essa paixão pela poesia e nunca coloquei em termos de “isso ou aquilo”, sempre fui somando, procurando convergências, tentando aproximar. Claro, isso marcou muito da minha forma de pensar e de trabalhar no Direito. Depois de formado, o caminho da pós-graduação (fiz mestrado e doutorado em Filosofia do Direito) também foi marcado por essa vontade de somar forças entre o que me move na poesia, na advocacia, nos estudos e na docência, que, na verdade, é o que me move na vida. Então não penso tudo isso como uma dedicação “a três coisas diferentes”, mas sim como uma mesma água em que essas coisas se confundem. Como advogado, poeta e professor, no fundo, no fundo, o que faço na maior parte do tempo é lidar com palavras, ideias e pessoas.

– Como é o seu processo criativo?

Percebi, de uns tempos pra cá, que não tenho exatamente um “processo criativo”, ainda mais no que se refere aos poemas. Tenho o hábito de tomar notas num caderninho, mas essas notas não são, num primeiro momento, versos. São anotações de algo que chega pelos olhos, pelos ouvidos, pela memória, enquanto me desloco pelas cidades, pela internet ou pelos livros, sejam de poesia, sejam de política, filosofia, história, jornalismo, literatura em geral, tudo o que leio com frequência. Essas notas do caderninho têm de tudo e, em algum momento, surge um poema que incorpora algo que já estava ali. Mas muitas outras vezes, como na maioria dos poemas de Íntimo desabrigo, os poemas surgiram quase inteiros na cabeça, logo que acordei, e foram concluídos em pouco tempo. Não costumo reescrever os poemas atualmente. Eles acabam ficando com a forma que ganharam numa primeira redação, ainda que algum ruído aqui e ali me incomode.

– Qual mensagem espera passar com seus livros e textos?

Não sei dizer. Não sei se há, de fato, uma mensagem a ser passada, ao menos quando penso, como conjunto, sobre tudo o que escrevo. Em cada texto, particularmente, pode ser mais fácil identificar alguma “mensagem”, um sentido, um gesto: como se o poema fosse pensado como um beliscão, um cafuné, um soco, um tapa, um carinho.

– Quando você percebeu que gostaria de se tornar escritor?

Eu era ainda muito novo e, pelo que me lembro, vieram quase no mesmo momento o gosto por ler poesia e a brincadeira de escrever meus próprios poemas, de tentar fazer algo parecido com aquilo que admirava tanto nos primeiros autores que me pegaram.

– Quais autores foram fundamentais para sua trajetória?

Muitos, muitos. Isso muda quase todo dia…Falando apenas de poesia, é claro que tem algumas constantes, como o Paulo Leminski, que foi talvez o primeiro poeta que me deixou com muita vontade de escrever, imitar, fazer algo igual. Nem sei o que eu escrevia na época, mas era muito colado na leitura do Leminski e de tudo o que ele dizia sobre o que a poesia devia ser. Logo em seguida, foram chegando outros autores que me despertavam tanta paixão quanto Leminski, mas que, cada um a seu modo, me puxavam para outros lados. Veio a poesia concreta, que me deixou de cabeça virada. Mas também Fernando Pessoa, que li muito, muito mesmo. Depois Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. Vieram os poetas da própria geração do Leminski, como Ana Cristina Cesar e Torquato Neto; depois comecei a conhecer a poesia contemporânea, poemas escritos por gente que era apenas um pouco mais velha do que eu. Junto a isso, sempre teve a música, a canção brasileira de todas as épocas. E uma paixão gigantesca por rap, pelos Racionais MC’s, que talvez tenha ajudado a filtrar e redefinir a influência de todos os outros autores que li e ouvi em mim. Mas tem dois nomes que não posso deixar de citar, autores sobre cujos livros passei e ainda passo muitas horas, aprendendo como funciona o poema: o paraense Max Martins e o português Manuel António Pina. Mas há tantos outros…

– Qual o último livro que você leu?

Leio sempre vários livros ao mesmo. Os de poesia, quando são mais curtinhos, engulo rápido, mas as estantes, as mesas, em casa e no escritório, e a mochila estão sempre cheias de livros que acabei de comprar ou que peguei da estante para reler. Se for para citar um, eu prefiro citar um autor: Joseph Brodsky. Comprei um livro de entrevistas dele que foi lançado há pouco no Brasil, A musa em exílio, passei dias encantado com o que encontrava nele e, desde então, baixei da estante vários outros livros dele, que comprei e li em outras épocas, e voltei a eles como se fossem absolutamente novos.

– O que você diria para os aspirantes a escritor?

Leia, leia, leia. Escreva, escreva, escreva. Converse. Circule. Viva. Tente. E leia (de tudo) e escreva (o necessário) sempre.

Fonte: Núcleo de Comunicação AASP

 

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