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(1)
Quantas
vezes mais Mestre Goffredo esteve com os estudantes?
Como
ingressei na Faculdade no ano de 1968, recordo-me de que, ao se
aproximarem os primeiros exames semestrais dos calouros, uma das
provas que amedrontava os iniciantes era a do Professor Goffredo,
cujas aulas, sempre muito concorridas, despertavam interesse ímpar.
Lembro-me
da noite anterior à data da prova; o livro aberto quando, lá de
fora, chegou rápida a notícia sobre a suspensão das atividades
acadêmicas.
Instalara-se,
então, o inesquecível
episódio da "tomada da
Faculdade"
pelo alunado, mais um entre tantos atos de
reação, cada vez mais freqüentes, contra a ditadura
militar-empresarial implantada em 1964, a par de outras demandas
mais localizadas, como a reestruturação universitária e até
mesmo curricular da própria Faculdade de Direito.
Alterou-se,
de pronto, o ambiente acadêmico. O XI passou a abrigar intensas
reuniões, realizando-se ali seminários com freqüência
majoritariamente de veteranos. Entre os calouros, poucos, se ainda
me lembro, como o Damião e o Antonio Augusto.
Pelo
acesso da Rua Riachuelo (comentou-se que havia durante a
"tomada da Faculdade" uma passagem entre o XI e o Páteo
das Arcadas), vi ingressarem para os seminários os Professores
Cesarino Júnior, Goffredo, Rocha Barros, Dalmo, Comparato,
Mesquita. Os ausentes, como eu próprio, recebiam postilas e
anotações para discussões fora do XI. Eram muito interessantes os
textos: lá estava debatido um amplo temário - da Escola ao
País; do golpe e ditadura militar à retomada da liberdade e
democracia!
A
presença dos Mestres alinhados com a defesa intransigente dos
direitos humanos, entre eles, o
Professor Goffredo
, dava a
garantia de que os alunos estavam na reta direção.
A
propósito, tenho a registrar que a minha ininterrupta e amadurecida
convivência nas Arcadas, iniciada em 1968, revela-me que os
estudantes sempre agiram como bons comandantes de batalhas dentro e
fora do velho Páteo de Pedras, seja pela reconquista da liberdade,
seja pela construção (tarefa ainda não completada) da cidadania
no nosso País.
Em
outras ocasiões, igualmente,
Mestre Goffredo esteve com os
estudantes
.
Não
se apagará da memória, incorporando-se à tradição das melhores
lutas pelo Direito travadas no Território Livre de São Francisco,
o episódio do
"enterro da Constituição"
,
iniciativa do Centro XI de Agosto reagindo à decretação do
recesso do Congresso sob pretexto de introduzir a reforma do Poder
Judiciário (pacote de abril de 1977).
A
figura imponente, ereta e ao mesmo tempo suave de Mestre Goffredo na
Tribuna Livre fez o ato, realizado em 28 de abril de 1977,
repercutir nacionalmente, tendo o Professor nos emocionado a todos,
proclamando,
verbis
:
"A
Constituição é obra do povo. Não toleramos que a Constituição
seja agredida por atos de Governo de força. (...) Não nos
enganarão, jamais, os ditadores. (...) Recusamos aceitar como
verdade
o que é
mentira
. Não toleramos a falsificação do sentido
autêntico das palavras. Para nós, ditadura é
ditadura
,
Democracia se chama
Democracia
(...) ".
(2)
Mais
um episódio é preciso relembrar, ainda. Em plena ditadura,
Mestre
Goffredo, uma vez mais, esteve com os estudantes
.
Como
esquecer o Coronel Erasmo Dias e seu truculento ato de invasão do
Território Livre, não só mediante impressionante aparato militar,
mas, ainda, o
"lança-tinta (vermelha?)"
para
identificar os "subversivos" e poder prendê-los após
levantamento do sítio.
Lá estava Mestre Goffredo, ao que me
lembro, na Sala da Comissão de Pós-Graduação
(ao lado da
Sala da Congregação), com outros professores, Dalmo, Comparato, e
os que imaginavam dar aulas naquele final de tarde (o horário
tradicional do Pós sempre foi às 17 horas).
Alertado
pelo office-boy de meu escritório sobre a "operação de
guerra" nas cercanias da Escola, pude deslocar-me rapidamente
para ali ingressar pela Rua Riachuelo antes que os soldados da
Cavalaria impedissem o acesso.
No
térreo da Faculdade,
Mestre Goffredo, ao lado do elevador dos
professores, fez outra veemente proclamação condenando a invasão
do Território Livre
. Enquanto as portas principais das Arcadas
se fechavam rapidamente para proteger os estudantes ali acolhidos, o
Presidente do XI, Mário Renato, o Jaú, pôs-se do lado de fora,
igualmente protestando. Brucutus, carros de combate, gás
lacrimogêneo, o tal "jato de tinta", a tentativa de tirar
de dentro do saguão alguns alunos por ousados e inconformados
militares, enfim, tudo muito mais facilmente suportado pelos
estudantes diante do
companheirismo
de alguns professores.
Mestre
Goffredo esteve com os estudantes
.
Há,
também, outro episódio em que
a presença de Mestre Goffredo
assegurou não só aos estudantes, mas aos segmentos da sociedade
civil,
reunidos em torno do
Plenário Pró-Participação
Popular na Constituinte
,
pronto
acesso ao Gabinete da Presidência da República sem prévia
audiência!
Como
se sabe,
Mestre Goffredo protagonizou um dos pontos altos da
retomada da Liberdade e da Democracia no nosso País
ao redigir
e ao ler a
"Carta aos Brasileiros"
(1977), no
Páteo das Arcadas, entre os seus queridos amigos estudantes da sua
Escola, presente multidão heterogênea com expressivas lideranças
da sociedade civil.
Quero,
todavia, relembrar a
redação pelo Professor Goffredo
da sua
"
Carta aos Brasileiros, ao Presidente da República e ao
Congresso Nacional"
, em outro momento histórico do Brasil,
quando se opôs em nome de centenas de entidades da mais alta
representatividade (CNBB, OAB, ABI, ANDES, Comissão Justiça e Paz
da Arquidiocese de São Paulo, Centro Acadêmico XI de Agosto, etc.)
à ilegítima Emenda nº 26/85, proposta pelo Presidente da
República.
Mestre
Goffredo não só denunciava a ilegitimidade da Emenda do Presidente
Sarney, mas, ainda, conclamava por uma
Assembléia Constituinte,
Livre, Autônoma e Soberana, desvinculada do Congresso Nacional
.
Esse
documento foi lido em sessão solene na sede paulista da Ordem dos
Advogados do Brasil e, posteriormente, por deliberação do
Plenário
Pró-Participação Popular na Constituinte
(no qual o
articulista representava a secção paulista da OAB na qualidade de
Conselheiro designado pelo seu Presidente, o advogado José Eduardo
Loureiro), foi decidido que deveria a Carta ser entregue aos seus
destinatários institucionais.
Em
Brasília
, Mestre Goffredo, na companhia inseparável de
Maria Eugênia, Francisco Witaker (idealizador e organizador do
Plenário), Marco Antonio Barbosa, Samuel Figueiredo, Margarida
Genevois, Silvia Witacker e tantos outros representantes de
entidades
de estudantes
e da sociedade civil, fomos ao Congresso e lá,
prontamente,
recebidos pelo Presidente Ulisses Guimarães, em
gesto de carinho especial ao seu Mestre Goffredo e reconhecimento da
relevância do movimento em prol da Assembléia Constituinte Livre e
Autônoma
.
Seguiu-se
a
caminhada em direção ao Gabinete da Presidência da
República
, sabendo-se de antemão que a audiência do
Presidente havia sido negada. Mesmo assim, duas dezenas de pessoas,
Mestre
Goffredo à frente
, vencemos a pé o caminho e na recepção
fez-se o competente anúncio da presença do grupo.
O
Gabinete Civil da Presidência da República
foi avisado e,
assim
que se pronunciou o
nome de Mestre Goffredo, partiu ordem
para a subida
; dispensados até mesmo rigores de exibição de
identidade e outros requisitos solenes de vestimenta.
Ali,
o então Assessor do Gabinete, ex-aluno da Velha Academia, hoje no
Supremo Tribunal Federal, o Ministro Celso de Mello, recebeu os
membros do Plenário, ressaltando
o respeito à presença de
Mestre Goffredo, que, dessa forma, liderou em audiência muito
especial a entrega do documento em mãos do Ministro Chefe da Casa
Civil
, após franco e firme discurso contra a Emenda do
Presidente.
Mestre
Goffredo esteve com os estudantes!
As
gerações novas - do presente e do futuro - devem ser lembradas
do exemplar comportamento do nosso "Professor Símbolo", o
Mestre Goffredo, para que
o melhor da tradição das Arcadas
justifique
seu culto, transformando-se em fonte permanente do longo e penoso
processo de construção da cidadania em nosso País.
Guardo
reportagem de "O Estado de S. Paulo", edição de 10 de
dezembro de 1969 (p. 15 - quarta-feira), sobre as nossas Arcadas
["Mestres e alunos têm suas críticas", "Arcadas
atraem cada vez menos" (
sic
)].
Respondendo
até que ponto é benéfica a tradição, o Professor José Ignacio
Botelho de Mesquita deixou seu pensamento registrado,
verbis
:
"A Faculdade de Direito tem uma só tradição, que é o amor
pelo Direito e pela Liberdade. Na medida em que essa tradição se
torne desconhecida, desprezada, posta de lado, ainda que
momentaneamente, a Faculdade perderá a sua razão de ser, pois dela
nada mais permanecerá senão suas formas exteriores".
Se
as gerações de hoje e de amanhã assumirem o compromisso de
impedir que desapareça a razão de ser da nossa Escola, então
devem guardar na lembrança os fatos narrados, inspirando-se no
exemplo de militância do "Professor Símbolo", o Mestre
Goffredo Telles Junior.
Aí,
uma conseqüência natural certamente fará com que essas gerações
(do presente e do futuro) continuem empunhando, no Território Livre
das Arcadas, as bandeiras pela Liberdade, pelo Direito e pela
Justiça.
Se
assim for, apelamos para que continuem reservando à geração do
passado um lugar no mastro dessas mesmas bandeiras.
Assim,
Mestre Goffredo estará sempre com os estudantes da sua Academia!
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