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1.
A perda dos territórios mexicanos depois da independência
"Pobre
México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"! A
frase, que eu não sei quem proferiu, mas que bem poderia ter sido
de Ortega y Gasset, é perpassada de fina e amarga ironia, e põe o
dedo do testemunho histórico na ferida da fatalidade geográfica de
que foi vítima, no século passado, a república de Hidalgo e
Juarez.
Com
efeito, menos de vinte anos depois de emancipar-se do domínio
espanhol, em 1821, o México perdia para os Estados Unidos a sua
"Amazônia" setentrional, sem florestas tropicais, mas de
clima temperado e composta de vastas e fertilíssimas terras, onde
jaziam o ouro da Califórnia, as pastagens do Texas e as riquezas
adormecidas de imensos e gigantescos lençóis petrolíferos. A
Califórnia era enaltecida e descrita como "a mais rica, a mais
bela e a mais saudável região do mundo".
Territórios
de povoamento extremamente rarefeito, encravados nas antigas
possessões espanholas e herdados à nova república, eles compunham
ao todo uma faixa de 850.000 milhas quadradas. Todo esse vasto
espaço de enormes tesouros naturais foi perdido para o país
vizinho, cujos habitantes o ocuparam primeiro pacificamente, como
hóspedes bem-vindos, comprando e demarcando terras de propriedade
privada e nelas se instalando; depois, na segunda fase, proclamando
ali uma república títere - a República do Texas - e,
finalmente, pelas armas, com a invasão militar e os exércitos de
conquista e anexação, executores de um cálculo de expansão
política, militar e econômica verdadeiramente inexorável.
(1)
Os
bons americanos, que cultivam sentimentos democráticos, conservam
até hoje, a respeito da questão mexicana e daquela política do
"manifesto destino"(
manifest destiny
), um certo
complexo de culpa - a dor e o peso na consciência que lhes trouxe
o remorso de haverem crescido e medrado grandemente a expensas da
nação vizinha, esbulhada e agredida.
Quem,
aliás, dá conta desses sentimentos é o professor de história
David Saville Muzzey, da Universidade de Columbia, nos seguintes
termos:
"Muitos
historiadores americanos têm denunciado a Guerra Mexicana como uma
nódoa em nossa honra nacional e representaram os Estados Unidos
como o lobo da fábula de La Fontaine, inventando um pretexto para
devorar o cordeiro.
Diz
Thodes, por exemplo, que nós impelimos o México para a
guerra".
(2)
Com
inteira insuspeição, escrevem Confield, Wilder, Paxon, Coulter e
Mead, na obra coletiva intitulada
A Formação dos Estados Unidos
:
"Quando um governo mexicano despertou para o perigo e tomou
medidas para deter a ulterior imigração era demasiado tarde".
(3)
Desmembrado
o Texas, que se autoproclamou, em 1836, uma República provisória e
de ficção, que durou apenas nove anos, o México, que era um país
de 7 milhões de habitantes frente aos Estados Unidos de 20
milhões, logo a seguir, em 1848, viu consumada nas ruínas da
guerra perdida a tragédia nacional.
"O
tratado de paz, assinado em Guadalupe - Hidalgo", escreve Elson,
"trasladou para os Estados Unidos o território que desde
então se tornou os estados da Califórnia, Nevada e Utah, parte do
Colorado e a maior parte do território do Novo México e do
Arizona."
(4)
Um
movimento de simpatia pela causa mexicana animou, contudo, a alma
dos pacifistas da Nova Inglaterra, que reprovaram a expansão e
fizeram Lowell escrever nos
Biglow Papers
que a guerra era um
assassínio ("
war was murder
"). Thoreau conclamava
seus compatriotas "à rebelião e à revolução" ("
to
rebel and
revolutionize
") enquanto Albert Galatin,
da Pensilvânia, considerava a Guerra Mexicana como "excelente
exemplo da perversão do patriotismo". Nesse ínterim, o Estado
de Massachusetts declarava que o conflito era uma
guerra de
conquista
, ao mesmo passo em que os abolicionistas, fazendo coro
com o
jovem congressista
Abraham Lincoln, denunciavam-na como
uma conspiração escravocrata, asseverando que os americanos não
estavam derramando sangue por uma parcela de seu próprio solo.
(5)
"A
Guerra Mexicana não foi travada pelos Estados Unidos por causa de
uma disputa fronteiriça, como o mundo fora induzido a crer, mas
porque Ahab cobiçava a vinha de Nabor, e os proprietários de
escravos punham suas vistas sobre o fértil sudoeste e dele
desejavam se apoderar", pondera Elson.
(6)
Ainda
bem que houve americanos como Lincoln no século XIX e Franklin
Delano Roosevelt no século XX para resgatar com a fé da democracia
e da liberdade essa feia página da história dos Estados Unidos.
Lincoln libertou escravos e Roosevelt arquitetou a política de boa
vizinhança e formulou o Estado social americano, sendo um homem
totalmente distinto daquele seu parente e antepassado Theodore
Roosevelt, caçador de onças e senhor da política expansionista do
bengalão
, a política do
big stick
no Caribe, ou
seja, do "fale manso e use um bom porrete, que você vai
longe".
2.
As analogias da situação do Brasil contemporâneo com a do México
no século XIX
Todas
essas reflexões e remissões ao passado não são descabidas. Urge
refrescar a memória continental de nosso povo. A situação do
Brasil tem certas analogias com a do México no século XIX, na
medida em que desperta hoje a cobiça inconfessável de
superpotências estrangeiras, que têm por ponta-de-lança algumas
das chamadas organizações não-governamentais, cuja ação se
espalha pelo mundo inteiro e cuja linguagem é precursora,
introdutória e preparatória do assalto à soberania, não tendo
obviamente a reserva, o comedimento e a dissimulação do discurso
diplomático. Suas ameaças já são palpáveis e constituem a
pré-agressão do futuro.
(7)
Corremos
o risco de ver até mesmo a Organização das Nações Unidas (ONU)
fazer aqui, de forma até mais refinada e eficaz, o papel que os
Estados Unidos fizeram, com menos hipocrisia, no século XIX.
Há
mais joio que trigo nos problemas da preservação da cultura
indígena, na batalha pela sobrevivência das tribos ianomâmis, na
cruzada da ecologia, na defesa da floresta amazônica.
O
cavalo de Tróia de falsos ecologistas, falsos antropólogos, falsos
indianistas e falsos evangelizadores se introduz sub-repticiamente
na Amazônia diante de uma nação perplexa, açoitada de três
crises sucessivas de inconstitucionalidade e retrocesso
institucional e, de último, a crise de desnacionalização, para a
qual nos quiseram empurrar com um separatismo de opereta e fancaria,
cuja fragilidade ridícula pode, todavia, principiar como comédia e
acabar como tragédia. Foi o que aconteceu com a Alemanha, onde o
putsch
de Hitler na cervejaria de Munique ninguém levou a sério e teve
por desdobramento o nacional-socialismo e a Segunda Guerra Mundial.
Um
senador americano do alto do Capitólio fez bravatas verbais e
indiretas contra o Brasil ao mesmo tempo em que o Presidente de uma
grande potência européia declarou, solene e peremptoriamente, que
a Amazônia é "patrimônio da humanidade" (como se Paris
também não o fosse...). Não faltaram por igual ingleses
fanáticos e xenófobos preconizando ostensivamente o genocídio de
nosso povo e bradando pelas chamas de uma nova Inquisição. Querem
os brutos "queimar um brasileiro" da mesma maneira que os
nazistas exterminavam nas câmaras de gás os desgraçados hebreus.
3.
A "mexicanização" da Amazônia principia com o Estatuto
da Hiléia Amazônica e prossegue com a questão indígena
A
"mexicanização" da Amazônia é conjuração em marcha,
que vem desde o célebre Estatuto da Hiléia Amazônica e desemboca
em fatos recentes, os quais traduzem sintomas de traição nacional
e corrosão da unidade de nosso povo. Tais ventos sopram da parte
daqueles que, consciente ou inconscientemente, fomentam teses desse
teor, contra as quais sempre nos insurgimos: a relativização
formal das soberanias nacionais, que só favorece os superfortes do
Primeiro Mundo e arrebata aos povos fracos a arma jurídica e moral
mais poderosa de que outrora se valeram as nacionalidades para
fechar o ciclo histórico dos privilégios feudais.
Querem
dois exemplos concretos dessa tese - a mais grave e funesta que
ora nos ameaça diretamente? Primeiro, o programa de
desestatização, cumprido para enfraquecer o Estado sem fortalecer
democraticamente a sociedade; enfraquecer o Estado e sua economia é
desapossar a nação dos instrumentos que lhe afiançam a
possibilidade de alforria. Segundo, a proposta divulgada por
respeitáveis
órgãos de opinião da imprensa estrangeira para esvaziar
orçamentos militares, extinguir, ou simplesmente atribuir papel
secundaríssimo de forças subalternas e auxiliares de segurança
interna aos exércitos da América Latina. Enquanto isso, forças
estrangeiras fizeram estranhas manobras militares perto de nossas
fronteiras setentrionais, em plena selva amazônica de uma das
Guianas.
Desarmar
o país é o primeiro passo para a sua desnacionalização e o seu
desmembramento. Ocupemos pois a Amazônia que é nossa, primeiro que
outros o façam. O Presidente da República parece haver tomado já
consciência da gravidade nacional e internacional desse perigo e
não há de passar à História como o Bustamante brasileiro, ou
seja, aquele desditoso Presidente mexicano que em 1830 exarou o
decreto da interdição migratória, quando já era tarde, e suas
leis não puderam cumprir-se, e Tróia ardeu.
Há
muitos fantasmas rondando a Amazônia. Vamos exorcizá-los enquanto
é tempo, antes que eles se materializem e a Amazônia seja riscada
do mapa do Brasil!
4.
A traição separatista
A
soberania nacional corre grave risco de desintegrar-se ou
extinguir-se. Vamos explicar por quê.
Quando
os nazistas hastearam a primeira suástica e os fascistas vestiram a
primeira camisa parda, sua estranha aparição nas ruas afigurou-se
ao incauto cidadão da democracia burguesa uma irrelevante
brincadeira de mau gosto. Ou, em outras palavras, um ato de
fanatismo que, no caso alemão, fez com que a polícia transferisse
os amotinados das mesas de uma cervejaria para as celas de uma
prisão política. Mas logo tornaram às ruas, às passeatas e aos
comícios com dobrado fanatismo, que o desespero, a desordem social,
a inflação e a bancarrota, cedo contribuíram para
transformá-los, com o volume das adesões recebidas, numa alavanca
de desestabilização das instituições, até o assalto final do
poder, consumado com a introdução das ditaduras e os decretos
institucionais que liquidavam o sistema e a ordem democrática.
O
desfecho de tudo foi uma Guerra Mundial, vinte e tantos milhões de
mortos, muito sangue derramado, muita viuvez, muita orfandade e
muitas lágrimas, para não falar em seis milhões de hebreus
asfixiados nas câmaras de gás dos campos de concentração.
Não
tem o Brasil pressupostos para que vingue a traição separatista.
Mas ela coincidentemente parte de um teuto-brasileiro, provavelmente
de primeira geração - Hitler era austríaco, embora de sangue
alemão -, que atua nos estados meridionais, onde ainda perduram
quistos culturais de família refratários a uma plenitude
assimilativa do sentimento nacional brasileiro. Por isso mesmo são
vulneráveis e abertos à penetração de idéias contaminadas de
racismo e forte apelo secessionista.
Em
verdade, a farsa separatista já ecoa na esfera internacional, em
dimensões suspeitas, conforme pessoalmente observei, em novembro de
1993, num simpósio de juristas em Muenster, na Alemanha.
5.
Outras ameaças e outras traições
Não
devemos, pois, subestimar a projeção dessa ameaça na ocasião
mesma em que outras ameaças e outras traições, de que a seguir
nos ocuparemos, se desenham visivelmente no horizonte da conturbada
crise política do Brasil. Senão, vejamos.
Uma
é pertinente à função das Forças Armadas, na qual o interesse
nacional ficará sacrificado se atribuirmos à tropa de linha,
debaixo do pretexto de que a Guerra Fria acabou, tarefas
incompatíveis com a natureza da missão constitucional que
desempenha a milícia, enquanto corpo militar permanente,
dissuasório de aventuras invasoras ou imperialistas, as quais o
mundo está a ver, que não cessaram nem vão cessar, conforme
ilusoriamente se tem proclamado.
Às
grandes potências interessa unicamente desarmar e debilitar os
países do terceiro e quarto mundos, entre os quais, em primeiro
lugar, o Brasil, em cujas fronteiras setentrionais, bem na orla do
Caribe, uma das superpotências, estranhamente, e pela vez primeira,
efetuou manobras de misteriosa finalidade.
Ao
tempo de Collor, a corrosão orçamentária das verbas destinadas à
manutenção e ao aperfeiçoamento da máquina militar refletia já
essa política do desastre e da catástrofe, traçada nos bastidores
internacionais, sem ciência e anuência da sociedade brasileira.
Com a difusão do falso princípio de que o poder militar se tornara
inútil na sociedade de nosso tempo, postulava-se um desarmamento
indireto e precipitado que só os pequenos, e não os grandes,
fariam. Estes últimos poderiam até, por disporem de arsenais
atômicos, se dar ao luxo de reduzir suas forças convencionais.
Preconizavam-se,
pois, diretrizes de ação que, executadas, afetariam a segurança
externa, comprometendo, ao mesmo passo, a integridade territorial do
país.
6.
A traição revisionista
De
último, outra ameaça desponta no clima político do país: o rolo
compressor da revisão constitucional, absurdamente açodada, de que
participa, aliás, o elenco de figurantes corruptos, que subtraíram
para o próprio bolso dinheiro público, daí resultando menos pão,
menos saúde e menos escola para os trinta milhões de brasileiros
da miséria absoluta.
Não
somos passionais da perfeição constitucional. Mas não podemos
admitir uma reforma séria, idônea e eficaz da Constituição,
edificada sobre as areias de um
quorum
unicameral de maioria
absoluta dos membros do Congresso Nacional, quando a legitimidade, a
legalidade e a sobrevivência da Federação imperativamente
determinam se faça ela, por via de emenda, mediante maioria de dois
quintos, em dois turnos de votação em cada Casa do Congresso.
Mas
o escândalo maior que avilta a soberania nacional, despedaça a
participação do cidadão e confisca a vontade geral do povo, é
que essa revisão, conforme já assinalamos, ergue-se sobre a lama
da participação de dezoito deputados corruptos e de quatorze sob
investigação; os primeiros, execrados unanimemente pelo Relatório
da CPI do Orçamento, com a qual se procurou lavar de nódoas a
dignidade e a reputação de um dos Poderes da República.
Não
resta dúvida que uma revisão com tal procedência escamoteia a
vontade nacional, conculca a soberania e usurpa os direitos do
cidadão, configurando opróbrio, ofensa e assalto aos valores da
democracia e da nacionalidade.
A
revisão só tem um alvo: quebrantrar o monopólio do Estado no
campo da eletricidade, do petróleo e da telecomunicação. O mais
se torna ali secundário, supérfluo, negociável. Estado forte só
existe com democracia, sendo pressuposto de nação livre. Estado
fraco, ao contrário, é sentença de nação escrava; sentença
lavrada, no caso do Brasil, com a privatização e
desnacionalização da Petrobras, com o enfraquecimento do poder das
armas e com o sopro das doutrinas separatistas de traição
nacional. O Congresso revisionista é o mesmo que podou recursos
destinados a manter a inviolabilidade da fronteira amazônica.
7.
A Amazônia é hoje o coração da unidade nacional
Aberta
desde muito à cobiça internacional e à invasão pacífica de
falsas missões evangélicas, bem como de pseudo-antropólogos e
cientistas sociais, a Amazônia é hoje o coração da unidade
nacional. Tais missões e tais
cientistas
compõem, sem
sombra de dúvida, com algumas exceções, a retaguarda dos corpos
armados que, ontem, conforme assinalamos noutro lugar, arrebataram
ao México a porção mais rica de seu território - da
Califórnia ao Texas, do Novo México a Utah -, um espaço de
cerca de dois milhões de quilômetros quadrados, ainda assim
inferior ao de toda a Amazônia.
Já
não são forças invisíveis ou ocultas que conspiram contra o
país: ao alcance de nossas vistas, numa operação ostensiva,
constrói-se o Cavalo de Tróia, que os invasores não precisarão
diligenciar a introdução dissimulada; aqui se acha ele já posto
intramuros por uma falange que bem merece o nome de quinta coluna, a
força civil secreta das décadas de 30 e 40 do século XX, cuja
função ignominiosa estava em abrir aos exércitos de ocupação as
portas das nações, as quais, antes da conquista, tinham primeiro
metodicamente vilipendiada e estraçalhada a honra nacional.
8.
O assalto à soberania e a ocupação dissimulada da Amazônia,
acobertada pela proteção das reservas indígenas
Hoje,
nos países em desenvolvimento, desconfia-se de que camufladamente
grande parte daquelas sociedades não-governamentais e missões
religiosas desempenham a mesma função de vilipêndio; na rota da
ocupação fingem-se de zelo sacerdotal pela causa indígena ou se
credenciam como cientistas do solo, da fauna e da flora. São a
ponta-de-lança da invasão futura. Buscam, desse modo, conhecer
melhor nossas riquezas com o propósito de arrebatá-las depois,
consoante já o fizeram nos casos do México e da Colômbia,
vítimas da maior tragédia imperialista dos últimos cento e
cinqüenta anos na América Latina.
Não
é sem razão que a demarcação das reservas indígenas, ocorrendo
mediante sub-reptícia pressão internacional, em verdade não
corresponde aos interesses do nosso índio, mas aos desígnios
predatórios da cobiça imperialista, empenhada já na ocupação
dissimulada do espaço amazônico e na preparação e proclamação
da independência das tribos indígenas como nações encravadas em
nosso próprio território, do qual se desmembrariam. Essa
demarcação desde muito deixou de ser uma questão de proteção ao
silvícola para se converter numa grave ameaça à integridade
nacional.
A
esse respeito, o mais alarmante nos vem dos Estados Unidos, onde, na
Câmara dos Representantes, já se legisla, com ambigüidades, sobre
a proteção dos povos indígenas do Terceiro Mundo!
Com
efeito, em 22 de março de 1991, o deputado Benjamin Gilman, de Nova
York, apresentou àquela Casa um projeto legislativo que
oficialmente se intitula de "lei para proteger os povos
indígenas do mundo inteiro".
Só
o título vale para demonstrar a sem-cerimônia, a arrogância e a
falta de autoridade com que esse parlamentar estrangeiro,
deslembrado do extermínio de seus moicanos e peles vermelhas,
intenta invadir na questão indígena a competência dos parlamentos
das nações em desenvolvimento ou subdesenvolvidas.
O
International Indigenous People Protection Act of 1991
tramita por distintas comissões daquela Câmara e determina ao
Secretário de Estado e ao Diretor da Agência Internacional para o
Desenvolvimento que subordinem a política externa dos Estados
Unidos a essa esdrúxula
proteção e sobrevivência cultural
dos povos indígenas do mundo inteiro.
Suspeita-se
que seja o primeiro grande passo legal e preparatório para
legitimar depois, interna e externamente, intervenções como
aquelas que ontem desmembraram no istmo da América Central o
Panamá da Colômbia, e fizeram nascer a república de Noriega, ou
anexaram o Texas à União Americana, a expensas do México.
Não
é de espantar, portanto, se amanhã os missionários estrangeiros
da Amazônia, até mesmo com a cumplicidade das Nações Unidas,
proclamarem na reserva indígena, que cresce de tamanho a cada ano e
já tem a superfície de um país da extensão de Portugal, uma
república ianomâmi, menos para proteger o índio que para
preservar interesses das superpotências.
Incalculáveis
riquezas jazem na selva amazônica e a proteção da cultura
indígena trouxe a presença ali de cavaleiros que se adestram para
segurar as rédeas de um novo e estranho Cavalo de Tróia.
O
que parece à primeira vista apreensão infundada ou mero pesadelo
de Cassandras nacionalistas, bem cedo, se não atalharmos o mal pela
raiz, mediante vivência efetiva nas fronteiras do Norte e Oeste, se
tornará um fato consumado e uma tragédia, e como todas as
tragédias, algo irremediável. A consciência da nacionalidade,
picada de remorso, não saberia depois explicar às gerações
futuras com honra e dignidade tanta omissão e descaso. O assalto à
soberania está pois em curso. É hora de pensar no Brasil!
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