Página Principal
Institucional
Outros Serviços
AASP Cultural
Vitae - Rede Profissional
Mapa do Site
Fale Conosco
Nº AASP
Senha
E-mail
Senha
 
Criar e-mail gratuito
Revista do Advogado


Professor Goffredo, exemplo de conduta ético-social

Marco Antônio Rodrigues Barbosa
Advogado militante; ex-presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo e do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana

(1)  

Escusado ressaltar que, na década de 80, a fruição desses direitos continuava totalmente comprometida pela "ordem fundada na doutrina da segurança nacional , toda voltada para os objetivos nacionais permanentes : a ordem definida pelo Conselho de Segurança Nacional, a ordem imperturbável das Forças Armadas". (2)   Cuidava-se, aí, não de uma ordem , mas de uma desordem ou de "uma ordem vigente no Brasil, fundada na doutrina da segurança nacional, (...) uma ordem política que nos era imposta pela força de um Governo absolutista: uma ordem que não admitia contestação, que não tolerava oposição vitoriosa, e que se apoiava em aparelhos repressivos. Era uma ordem agressiva e constrangedora, cega para os Direitos Humanos - contrária à ordem democrática. Para nós, democratas, criados no respeito pela dignidade soberana das pessoas, alimentados com o ideal permanente da liberdade, aquela ordem discricional - ordem do arbítrio - nos feria e infelicitava. Era a ordem que não queríamos . Para nós, a ordem dos órgãos de segurança era desordem ". (3)  

Urgia, mais uma vez, levantar a bandeira de uma grande causa: propugnar pela revogação da Lei de Segurança Nacional, que dava sustentação à Doutrina de Segurança Nacional. E a Comissão Justiça e Paz, empunhando essa bandeira, resolveu promover um ato "brechtiano", denominado "Primeiro Tribunal Tiradentes", presidido pelo saudoso Senador Theotonio Vilela, para julgar e condenar a Lei de Segurança Nacional - acontecimento este inesquecível, ocorrido no Teatro Municipal de São Paulo, lotado, que resultou num filme dirigido por Renato Tapajós, denominado "Em nome da Segurança Nacional". E, mais uma vez, como protagonista da história do Brasil, o Professor Goffredo aceitou prontamente ser testemunha de acusação dessa lei, que, obviamente, acabou por ser condenada pelo corpo de jurados, composto também por outros ilustres brasileiros, tais como Hélio Bicudo, Professor Dalmo de Abreu Dallari, Luiz Ignácio Lula da Silva, Hélio Fernandes, dentre outros.

Logo depois, ainda na década de 80, impunha-se dar continuidade ao processo de transição democrática. Iniciava-se a luta pelas eleições diretas, repudiando-se, para tanto, as eleições indiretas, que viriam a ser realizadas no malfadado Colégio Eleitoral.

A Comissão Justiça e Paz de São Paulo, a qual, para nossa honra, passara a integrar Maria Eugênia Raposo da Silva Telles, esposa do nosso homenageado, mais uma vez empunhou a bandeira dessa importante causa, visando à condenação do Colégio Eleitoral. Para tanto, cumpria instalar, novamente no Teatro Municipal, o "Segundo Tribunal Tiradentes"; para tanto, necessitava-se de um Presidente, que, parodiando Carlos Heitor Cony, a respeito de Oscar Niemeyer, tivesse atingido "(...) aquele estágio de santidade sem Deus, fala o que quer e como quer e está sempre com razão, pois o eixo de seu pensamento é a realidade de um mundo injusto que até hoje não conseguimos modificar". (4)  

E, mais uma vez, consciente de sua missão, não se furtou o Professor Goffredo. Recordo-me com saudade desse episódio, onde, como advogado de acusação do Colégio Eleitoral, atuou o depois Ministro Paulo Brossard; como advogado de defesa, meu colega de escritório Samuel Mac Dowell de Figueiredo e, dentre as testemunhas de acusação, o saudoso Deputado Ulisses Guimarães, que, questionado por mim, para explicar seu apoio posterior ao Colégio, justificou, de forma bem humorada e inteligente: a cobra se mata com o próprio veneno.

Agora, neste início de século, mais uma vez, fui honrado com o convite, para participar, como membro do Conselho Consultivo da Ouvidoria da Prefeitura Municipal de São Paulo, em companhia do Professor Goffredo.

Enfim, Professor, o que devo ainda dizer em sua homenagem? Lembro-me de Vittorio Gassman: indagado, em um programa de televisão, a respeito de sua própria vida, respondeu que esta deveria constituir-se de duas etapas, uma para ensaiar e outra para representar; no seu caso, Professor, homem perseverante, de profundo estudo, aqui ensaia e representa; sua vida sempre foi e é uma perpétua oficina regida pelo trabalho; seus feitos, seu exemplo e seus livros são essenciais, orgulho da geração atual e um legado à vindoura. Sua obra, vasta e brilhante, é, como diria Machado de Assis, fruto do engenho do filósofo, do prosador e do poeta, que conhece todos os tons da escala.

(1) - Cf. Goffredo Telles Junior, A folha dobrada - Lembranças de um estudante , Nova Fronteira, p. 907.

(2) - Idem, p. 919.

(3) - Idem, pp. 919/920.

(4) - Cf. "Folha de S. Paulo", edição de 14/4/2002, p. 2.

Facebook da AASP Twitter da AASP Canal da AASP no Youtube