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(2)
De lá emergiram,
além de presidentes, seres humanos disparatados: artistas modernos,
como Oswald de Andrade, comunistas do porte de Caio Prado Júnior,
trotskistas como Plínio Mello, caçadores de esquerdistas,
dedos-duros e monarquistas temporões. Ao seu país, a São
Francisco deu políticos de todos os matizes, deu bêbados de
inúmeras estirpes e até mesmo formou advogados. Alguns de
importância histórica. Muitos poucos se tornaram unanimidades.
Goffredo
Telles Jr. é um desses. Em 1988, ele foi advogado dos professores e
funcionários da Universidade de São Paulo no primeiro mandado de
segurança coletivo da história brasileira, logo após a
promulgação da atual Constituição Federal. Impetrado contra o
governador e seu secretário de segurança, o mandado pretendia
abrir o acesso dos servidores em greve às mais altas autoridades do
estado para dar curso às negociações. O professor Goffredo foi
pessoalmente despachar sua petição no Tribunal. À sua presença,
um desembargador levantou-se do seu lugar - uma atitude
absolutamente contrária ao rígido protocolo -, atravessou o
salão, e foi abraçar seu ex-professor. Ali, simbolicamente, o
Judiciário homenageava uma instituição: um homem livre com sede
de justiça.
"Eu
sou apenas um estudante", costuma repetir o professor. Pois é
isto mesmo: acima de tudo, estudante é o que ele é. E por ser um
estudante, como seus alunos, é um professor
tão amado. Para
quem passou por aquela faculdade, ouvir aplausos nas salas do
primeiro
ano
,
depois das aulas de Goffredo, era algo
tão corriqueiro quanto ser abordado por um colega distribuindo
panfletos. Tão corriqueiro que parecia que teria sido sempre assim.
Claro
que não foi. Formado em 1937, Goffredo só começou sua carreira de
professor em 1940. Após 45 anos de docência, foi terminá-la,
compulsoriamente, por força de lei, quando completou seus setenta
anos, no dia dezesseis de maio de 1985. Entre os alunos que
aplaudiam suas aulas, paira a tentação de uma pequena brincadeira:
a lei que o aposentou é uma lei ilegítima, dizem eles. E nenhum
aluno de Goffredo pode se permitir a confusão entre o legal e o
legítimo. De qualquer maneira, aos 75 anos (lembremos que esta
entrevista foi originalmente publicada em 1990), ele é hoje um
velho mestre aposentado. Mas aposentado somente à luz da
legalidade, bem entendido. À luz da legitimidade, o eterno
estudante continua professor. Todas as quartas-feiras, ou quase
todas, por volta das cinco horas da tarde, lá está ele, cercado de
jovens discípulos, em alguma sala da Faculdade, ou no Centro XI de
Agosto, na sala que leva o seu nome, conversando sobre a dignidade
do ser humano, o Direito e os destinos do país. É o chamado
"Círculo das quartas-feiras", no qual todos têm a
palavra e no qual o mestre também fala, mas despretensiosamente.
São
lições de uma vida intensa e diversificada. Primogênito entre
cinco irmãos, filho de Goffredo-pai e Carolina, viveu com fartura a
sua infância. Foi aprender a ler e escrever em Paris. Aos cinco
anos falava francês e inglês, e este último "melhor que o
português". De volta ao Brasil, em 1922, conviveu com alguns
dos grandes nomes do modernismo. Adolescente, em 1933 entrou para a
Faculdade de Direito da qual não saiu nunca mais. É sob o prisma
das pulsações políticas que tiveram lugar nessa escola que devem
ser compreendidos os movimentos de sua vida. Na década de 30,
Goffredo aderiu ao integralismo, ao lado de dois de seus irmãos e
muitos amigos. "Nós não éramos fascistas, tanto que muitos
dos nossos saíram diretamente do integralismo para entrar no
PC", lembra, lamentando a interpretação histórica segundo a
qual todos os integralistas eram reacionários empedernidos. Em
1946, elegeu-se deputado constituinte. Durante o regime militar,
chegou a elaborar dois projetos de Constituição que, entregues a
Costa e Silva e Médici, em nada resultaram. Ao mesmo tempo, esteve
ao lado dos estudantes em várias atividades durante a histórica
ocupação da Faculdade. Desde o surgimento do PT, tem estado junto
dos trabalhadores nas grandes campanhas cívicas, como as
Diretas-já, ou nas jornadas eleitorais. Eleitor de Lula, desde o
primeiro turno em 1989, não abriu mão de apoiar os
candidatos do PT em 1990.
Um
pouco de tudo isso ele conta nesta entrevista (gravada no segundo
semestre de 1990), que exigiu de sua agenda um espaço generoso,
para duas longas conversas. Elas aconteceram no escritório dele,
num prédio alto da avenida São Luís, em São Paulo. Ali mesmo, um
andar abaixo, ele mantém sua residência. Em casa e no escritório,
cultiva plantas e tem pássaros e gatos. Adora a natureza, diz.
Além disso, tem livros. Muitos livros por todas as paredes. Alguns
deles, certamente, são as melhores testemunhas da vida de Goffredo
Telles Jr., alguém que tem a discreta elegância de uma família
tradicional, a paixão de um jovem estudante e a dignidade de um
trabalhador que quer mudar o mundo.
Quantos
livros o senhor tem aqui?
Creio
que temos cerca de 10 mil livros. A biblioteca cresce todos os
meses. Direito, política, história, filosofia, biologia, física,
aqui no escritório. Ficção e poesia, ali em casa. Como não é
possível viver todas as vidas do Universo, procuramos viver todas
as vidas lendo nossos livrinhos.
É
verdade que a primeira vez em que o Lula veio aqui, ele teria
perguntado se o senhor já tinha lido tudo?
[risos]
O nosso escritório de advocacia não pode deixar de ser um centro
político. Aqui nós recebemos os líderes das mais diversas
tendências. A visita do Lula foi uma festa para nós. Sempre será
recebido como um querido amigo. Lembro-me que, efetivamente, na hora
de sair, ele parou diante das estantes, ficou olhando, pensativo, e
me disse: "É livro, hein, professor... Sabe, eu também tenho,
na minha casa, uma estante. É uma estante de uns setenta, oitenta
centímetros, e tenho uns livros ali. Meus companheiros olham para
aquilo e me perguntam, espantados: 'Lula, você já leu tudo isso?'
Daí eu respondo que vontade não falta, mas quando começo a ler,
lá pela página vinte ou trinta, me dá um sono... Não posso dizer
que tenha lido tudo." Aí, eu perguntei ao Lula: "Mas,
então, me diga: como é que você sabe tantas coisas, todas as
coisas de que você fala?" Ele me olhou, sorriu e disse:
"O senhor quer saber como eu sei dessas coisas? É muito
simples: aprendi com vocês".
E
então, professor. O senhor leu tudo mesmo?
Durante
meu curso, li muito. Estudei com amor as disciplinas do Direito.
Utilizei-me principalmente de autores franceses ou de autores
traduzidos para o francês - naquele tempo eram poucos os bons
livros em português. Com máxima dedicação, estudei filosofia,
sobretudo a metafísica, a lógica e a psicologia. Li os filósofos
gregos. Li Homero, Horácio, Lucrécio e Virgílio. Li o que pude da
grande literatura mundial. Até hoje sou um inveterado. Leio e
releio meus poetas preferidos. Li recentemente
O sorriso do
lagarto
, de João Ubaldo Ribeiro, e
O mulo
, de Darcy
Ribeiro. De lápis na mão, reli agora as
Odes
, de Horácio.
Há vinte anos, venho estudando química, física e biologia.
Convenci-me da unidade do mundo. Convenci-me de que a ordem
jurídica é um simples setor da ordem cósmica.
Pois
é, desde o aparecimento do Partido dos Trabalhadores a sua
posição tem sido de apoio e solidariedade. Digamos que entre os
muitos líderes que andaram aqui pelo escritório, o senhor acabou
fazendo uma opção pelos de esquerda. O senhor é socialista?
Sou
socialista sim. Mas atenção! A palavra socialista é uma palavra
que os filósofos chamam de analógica, porque ela se aplica a
coisas diversas, embora análogas. Ela é o nome de pensamentos
diferentes, mas que guardam certa relação entre si. Há vários
tipos de socialismo e de socialistas, e aqui não estou dizendo
nenhuma novidade. Eu sempre tive uma tendência natural, uma
simpatia voltada para o socialismo, no seu sentido mais genérico.
Em resumo: meu espírito e meu coração tendem para a esquerda.
O
que o senhor pensa de Gorbatchev?
Parece-me
que Gorbatchev é a quinta-coluna capitalista dentro da URSS. Talvez
eu esteja enganado. Mas esta é a minha impressão.
Mas
então o senhor acha que a vitória da perestroika é a destruição
do socialismo no mundo?
Vou
tentar resumir meu pensamento. Você se lembra do célebre lema dos
revolucionários franceses: "Liberdade, igualdade,
fraternidade"? A luta pela liberdade criou os chamados Direitos
Humanos, que constituíram uma barreira contra a prepotência dos
governos absolutistas. Depois, a luta pela igualdade é a nossa luta
atual, contra a exploração do homem pelo homem, contra a
prepotência dos economicamente fortes sobre os economicamente
fracos, isto é, nossa luta pelas liberdades democráticas e pelos
direitos concretos dos trabalhadores. Agora, a luta mais alta é
nossa luta pela fraternidade, que é a luta por uma humanidade
melhor, por um regime chamado socialismo. Fraternidade entre os
homens é socialismo. Socialismo, em última análise, é
fraternidade. A perestroika teve um grande papel. Multidões de
trabalhadores tinham sido imobilizadas pela burocracia soviética.
Imobilizadas no processo político de socialização. Libertados
pela perestroika, os proletários unidos se puseram novamente em
movimento, e é isto o que mais importa. O que os trabalhadores
querem não é o capitalismo. O que eles querem é eqüidade e
bem-estar. Mais do que nunca, estamos caminhando em direção da
fraternidade universal, ou seja, em direção ao socialismo.
Que
tipo de socialista é o senhor? O senhor não é um marxista, certo?
Não.
Mas Marx é um dos pensadores que mais me impressionaram.
Quando
o senhor leu Marx?
Há
muito tempo. As primeiras leituras foram feitas enquanto cursava a
faculdade. Eu me formei em 1937. Comecei a dar aulas em 1940. Desde
estudante, eu já me preparava para meu futuro concurso de
professor. Fiz muitas leituras durante a mocidade. Mas essas
leituras da juventude não costumam ser muito bem feitas. Nós não
as entendemos direito. Pensamos que estamos entendendo, mas não.
Isto se dá tanto com os livros sobre política quanto com os livros
de filosofia. É curioso como a releitura, mais tarde, dos mesmos
livros tem um outro sabor e, muitas vezes, tem também um outro
sentido. Vou citar um exemplo bem típico. Ainda me preparando para
o concurso de livre docente, li
A crítica da razão pura
, de
Kant, que me abalou profundamente. Eu me lembro que eu dizia a mim
mesmo: "preciso reler este livro". Muito bem: quando fui
fazer meu concurso para catedrático, em 1954, fui reler. Tive
então dois anos fora da Terra. O arrebatamento intelectual que ele
me causou foi indescritível. Aí é que eu realmente entendi Kant.
Isto me aconteceu com Kant, mas também me aconteceu com Spinosa e
Descartes. Depois, outras releituras marcaram muito o meu espírito.
Marx, Lenin e Engels, todos eles tiveram grande repercussão em mim.
Imensa impressão me causou a releitura de Jean-Jacques Rousseau.
Me
parece que o senhor é socialista em decorrência de ser democrata
...
Vamos
ser claros. Para mim, a democracia é o processo político que
assegura a permanente penetração da vontade dos governados nas
decisões dos governantes. É um processo de abertura de canais por
onde os anseios do povo penetram, para atingir o governo e nele
influir. Com esses canais, a democracia tende a ser o caminho da
fraternidade entre povo e governo. Com o aperfeiçoamento do
processo, a democracia se faz socialismo. A meus olhos, o socialismo
é a perfeição da democracia.
Seria
correto afirmar que o socialismo é a materialização dessa mesma
democracia?
Eu
não tenho dúvida nenhuma. A tendência da democracia é uma
tendência socialista. É uma tendência para a esquerda.
A
sua vida também é um pouco assim, não é professor? Sempre
tendendo à esquerda, cada vez mais tendendo para o socialismo.
É
verdade. O ser humano tem a pretensão de ser inteligente. Ora, a
inteligência é uma faculdade muito exigente. Ela nunca está
satisfeita. Sempre quer mais e melhor. Ela se acha atraída pela
perfeição. Como a perfeição é inatingível, a inteligência
está sempre em movimento, à procura de um bem que ela almeja, mas
nunca alcança inteiramente. Está sempre à procura de justiça, de
eqüidade, de fraternidade. Ora, os políticos de direita dão
férias à inteligência, instalam-se nos cômodos existentes, não
querem mudar nada, ou fingem fazer mudanças, mas somente para
garantir que nada vai mudar. Proclamam que a justiça está feita,
e, entre eles, qualificam a revolta, a indignação, o clamor dos
infelizes, de baderna e subversão. Por outro lado, os políticos de
esquerda, ao invés de dar férias à inteligência, fazem a
inteligência funcionar a todo vapor. Não preciso dizer mais nada.
Em
1946, o senhor foi eleito deputado constituinte por São Paulo. Na
sua vida, que pode ser vista como uma caminhada na direção da
esquerda, o que representou aquele momento? O senhor foi pelo
partido de Plínio Salgado, um direitista, não?
Não.
Eu fui eleito por uma coligação de partidos: o Partido Social
Democrático e o Partido de Representação Popular.
Bem,
ao menos na juventude, o senhor esteve alinhado a Plínio Salgado
durante o movimento da ação integralista brasileira. O senhor foi
integralista?
Nunca
fui "alinhado" com homem nenhum. Durante toda a minha
vida, somente estive a serviço de minhas próprias idéias. No
apogeu do fascismo e do nazismo, escrevi o seguinte: "Chamamos
Estado Moderno o Estado Ético, antiindividualista e
antitotalitário. (...) Criado para servir ao homem, orienta-se para
os alvos que estejam em conformidade com o destino supremo do mesmo.
(...) O Estado Moderno é antitotalitário porque faz prevalecer o
Moral sobre o Social e o Espiritual sobre o Moral. Reconhecendo a
iniqüidade da tirania, proclama o princípio da intangibilidade da
pessoa humana". Estas palavras estão escritas aqui, você
está lendo, páginas 31 e 32, do meu primeiro livro,
Justiça e
júri no estado moderno
, elaborado durante os anos de 1936 e
1937, e publicado em 1938. Para a defesa destas idéias, é que fiz
política na minha juventude, e que, em 1945, fui eleito deputado
constituinte. Estas, e só estas, são as minhas idéias
-
idéias que estão escritas e publicadas, e que sempre foram
sustentadas por mim. Não me venham agora atribuir idéias que nunca
tive. Sempre fui antifascista, antitotalitário. Dentro do
integralismo, sempre fui antifascista, antitotalitário. Para mim e
para meus colegas integralistas, o Estado Integral era precisamente
o Estado que se opunha ao Estado Totalitário. Há quem diga, bem
sei, que o integralismo era fascista. Hoje, eu sei que o
integralismo não era um movimento unificado. Havia uma ala fascista
dentro dele. Mas nós, estudantes universitários, nunca tomamos
conhecimento desta ala discordante. Nós defendíamos o integralismo
para combater o fascismo. E também para combater os partidecos
inexpressivos de uma burguesia apática. Esta é a verdade nua e
crua. Esta é a verdade comprovada pelo que escrevi em meu citado
livro.
Por
favor, ninguém o acusa de fascista ...
Realmente,
era só o que faltava. Quando saiu a
Carta aos brasileiros,
Franco
Montoro, que assina a carta também e que era senador, fez um
discurso no Congresso Nacional e a leu. Houve lá dentro uma
discussão acalorada. Eu, autor da carta, fui, na mesma sessão,
chamado de fascista e comunista.
Quem
o acusou de fascista?
O
coitado já morreu. Chegou a ser vice-prefeito de São Paulo. Tempos
antes, ele se encontrou comigo numa reunião política e me pediu
desculpas. Águas passadas... Sobre as minhas convicções, sobre as
minhas idéias políticas, desde a minha juventude até os dias de
hoje, não é possível manter dúvidas. Está tudo escrito por mim.
Escrito e reescrito. Creio que bem poucas pessoas podem provar o que
pensavam na juventude. Eu posso. Basta ler o que escrevi em meus
livros e em minhas proclamações.
Que
idade o senhor tinha no tempo do integralismo?
Eu
tinha dezessete anos, em outubro de 1932; eu tinha 22 anos de
idade em 1937, quando Getúlio Vargas fechou a Ação Integralista e
os demais partidos, e implantou a ditadura do Estado Novo. Em 1938,
muitos de meus companheiros entraram para a clandestinidade, na
extrema-esquerda. Roland Corbisier, extraordinário companheiro
integralista, querido amigo, o maior líder estudantil da Faculdade
de Direito e de toda a universidade, por exemplo, foi um desses.
Orador fantástico. Foi para o comunismo. Muito natural esta
evolução. Como nós éramos contra os melancólicos partidos da
burguesia, que não significavam nada e que estavam estorvando a
vida nacional, o que nos restava? Fomos caluniados torpemente.
Éramos apresentados pelo avesso do que éramos. De boa e má-fé,
houve quem nos tachasse de fascistas. Mas como, se lutávamos
exatamente contra o fascismo? Foi chocante. Tão chocante que muitos
entraram, revoltados, para o Partido Comunista.
E
o senhor, por que não entrou no PC?
Não
entrei no PC porque não sou comunista. Não tolero o totalitarismo
da burocracia soviética. Eu sou um democrata que sonha com a
fraternidade universal. Não quero ditadores por cima de
minha cabeça. Caminharei para o socialismo por força de minhas
próprias idéias.
Como
foi sua eleição em 1946? O senhor mesmo costuma dizer que foi uma
surpresa.
Eu
estava em minha casa quando, às quatro ou cinco horas da manhã,
recebi um telefonema do Rio pedindo para que eu entrasse para a
chapa do Partido Social-Democrático.
Não
era esse o partido do Plínio Salgado?
Não,
o Plínio era do Partido de Representação Popular.
Que
estava em coligação?
Depois
esteve. Porque eu estava na chapa do Partido
Social-Democrático e eles me apoiaram. Foi por isso. Mas não foram
só eles que me apoiaram. Esta história até me encabula um pouco.
Sabe por quê? Aconteceu o seguinte: eu tive a segunda maior
votação do Brasil,
(3)
de forma que não seriam os
integralistas, que eram minoria absoluta, que iriam me eleger.
Ou
tutelar.
Absolutamente.
Tive votos no estado todo. O maior surpreso fui eu.
O
senhor conheceu Luís Carlos Prestes no Congresso Nacional, certo?
Eu me lembro de ouvir o senhor dizer que o Prestes era uma pessoa
que não gostava de ouvir ...
Ele
era um homem brusco, mas me dava a impressão de ser muito sincero
- e eu o admirava pela sua sinceridade. Nessa ocasião, tive a
alegria de conhecer pessoalmente nosso grande Jorge Amado. No
senador Prestes o que não me agradava era seu estilo intolerante.
Eu nunca tive paciência para suportar gente intolerante, que não
sabe ouvir, pessoas que se consideram donas da verdade. Mas, no
nosso país, Prestes foi modelo de muitas virtudes: fidelidade,
coerência, retidão, coragem.
Mas,
voltando um pouco ao integralismo. No primeiro número de
Teoria
& Debate
, eu entrevistei o Fúlvio Abramo. Ele me contou de
um episódio em 1934, dia sete de outubro de 1934, na Praça da Sé,
quando se deu um enfrentamento armado entre integralistas e
socialistas, ao qual esteve presente. O Mário Pedrosa, ferido a
bala,
foi parar no hospital. Ao que consta, era um Comício Integralista
que os Socialistas pretendiam desmanchar.
Não
houve enfrentamento nenhum. O que houve foi uma repressão policial
a uma manifestação de operários e estudantes. Foi uma tristeza.
Operários morreram. Uma bala da polícia atingiu Mário Pedrosa.
O
senhor estava lá, nesse dia?
Estava.
Assisti a tudo. Eu era um estudante da Faculdade de Direito. Tinha
dezenove anos de idade nessa ocasião.
Vocês
estavam armados?
A
manifestação era de operários e estudantes. Naquele tempo,
ninguém andava armado.
E
no cotidiano do movimento, vocês tinham reuniões, grupos de
estudo?
Na
Faculdade de Direito existiam diversas associações, onde se
realizavam reuniões animadas e acalorados debates sobre a política
brasileira. Na Associação Álvares de Azevedo, na Academia de
Letras da Faculdade, no próprio Centro Acadêmico XI de Agosto,
reuniam-se estudantes de todas as tendências e de todos os
partidos, para esses prélios políticos de grande interesse para a
formação de líderes populares. Comunistas, integralistas e
liberais ali vinham defender seus princípios. Lembro-me de uma
longa polêmica, durante vários dias, sobre o tema "Autópsia
de um regime". Este simples nome revela o desprezo dos
estudantes pelo regime vigente naquela época. Lembro-me, também,
que, na Associação Álvares de Azevedo e na Academia de Letras da
Faculdade realizavam-se conferências doutrinárias sobre os mais
diversos assuntos. Devo dizer que os comunistas e os integralistas
eram bons estudantes: liam muito e discutiam muito. Hoje, quando
penso sobre esses fatos, verifico que, na verdade, todos eram
idealistas, sonhando com um Brasil melhor. Quando nos encontramos na
rua, abraçamo-nos comovidos, e com muita saudade. Quanto
sonho, quanta pureza, quanto patriotismo, naqueles tempos!
Os
militantes do integralismo eram pobres ou ricos?
O
integralismo era um movimento de operários e estudantes,
contra a burguesia em geral.
E
não havia algum tipo de vinculação com forças políticas
internacionais?
De
forma nenhuma. O integralismo era um movimento essencialmente
nacional, com sedes em todo o Brasil.
E
na Constituição de 1946, qual era sua plataforma?
Sempre
a defesa da democracia. Acontece que durante a Constituinte eu era
muito jovem e inexperiente. Eu tinha 29 anos. Quase nunca conseguia
a palavra. O Otávio Mangabeira, presidente da Câmara, e bom amigo,
achava graça na minha batalha, e de vez em quando me abria uma
janela. Uma luta que vale a pena lembrar foi aquela que travei
contra o Instituto Internacional da Hiléia Amazônica, em 1947. Uma
madrugada
-
as coisas muitas vezes me acontecem de
madrugada porque sou muito madrugador, as pessoas sabem disto
-
recebo um telefonema do velho Dr. Artur Bernardes, deputado,
ex-presidente da República, que me disse o seguinte:
"Professor Goffredo, tome um táxi e venha imediatamente ao meu
apartamento porque estão vendendo o Brasil". Chegando lá ele
me contou tudo. O governo acabava de assinar um tratado
internacional de fundação do Instituto Internacional da Hiléia
Amazônica. Em seguida, me mostrou os papéis sobre as funções e
os planos do instituto. Era uma vergonha. O instituto, com sede em
Manaus, sustentado por dinheiro brasileiro, reunia delegados dos
Estados Unidos e dos nossos países vizinhos. O Brasil comparecia
com o mesmo direito deles e com o ônus de todas as despesas. Tudo
feito em segredo, sem conhecimento da nação. Uma invasão do
território nacional.
Quem
assinou o tratado, o Presidente da República em pessoa?
Foi.
O general Dutra. Nessa madrugada ficou resolvido que eu faria o
trabalho no plenário da Câmara, e o Dr. Artur Bernardes
trabalharia nas comissões da Câmara e do Senado. No dia seguinte
pronunciei meu primeiro discurso de alerta contra o instituto, que
era uma intromissão perigosíssima dos Estados Unidos na Amazônia.
Era uma cunha, uma ponta-de-lança que poderia se transformar em
base militar dos Estados Unidos no meio da região.
E
que justificativa foi usada pelo governo?
O
pretexto era cultural, de pesquisas e de estudos. Li os documentos
na tribuna da Câmara. A soberania nacional estava em jogo. Mas o
tratado dependia do referendo do Congresso. Eu fiz o meu discurso. O
Parlamento se emocionou. Interesses suspeitos imediatamente se
manifestaram. Nesse tempo eu morava no Hotel Serrador, que ficava
perto da Câmara. Uma coisa surpreendente aconteceu. A Marinha
resolveu, sem me dizer nada, fazer um corredor de marinheiros.
Sabendo que eu voltava a pé do Congresso, postou marinheiros dos
dois lados da rua São José, e eu passava por ali sem saber que
estava sendo protegido pela Marinha. Temiam que eu fosse agredido.
Dois dias depois, fiz meu segundo discurso. O Dr. Artur Bernardes
trabalhou com grande competência. E conseguimos que o Congresso
negasse o referendo. Assim, derrubamos o tratado, que já estava
assinado.
E
a cassação do Partido Comunista?
Aquilo
foi uma vergonha. Votei contra a cassação e apresentei, por
escrito, minha declaração de voto.
O
senhor recebeu o título de Professor Emérito da Universidade de
São Paulo, logo após sua aposentadoria, em 1985. Porém, pouco
tempo antes, a Congregação da Faculdade negou o Título de
Professor Emérito a diversos docentes, entre os quais o senhor.
Creio
que não foi uma decisão contra mim, pessoalmente. Foi uma decisão
de ordem geral, e a Congregação acabou fazendo o que, eu acho,
não queria fazer. Foi para mim um grande choque, mas entendi o que
havia acontecido. Poucos dias depois, o Conselho Universitário, por
proposta de um estudante da Faculdade, corrigiu tudo, e me deu uma
alegria inesperada e extraordinária. Concedeu-me, por votação
unânime, o título de Professor Emérito da Universidade de São
Paulo.
O
Conselho Universitário reparou o erro da Congregação da
Faculdade?
Eu
não pedi nada e não mereço nada. A Congregação da Faculdade é
soberana, e fez o que quis. Eu sei que não foi contra mim, mas eu
acabei atingido. Mas não penso mais nisso. Todos os professores da
Congregação foram queridos alunos meus. O Conselho Universitário,
num gesto de grandeza e bondade, me conferiu o mais alto dos
títulos.
O
senhor deve ter vivido seus piores e melhores dias naquela
Faculdade.
A
Faculdade é a minha casa, minha escola, minha insigne academia. Ela
é minha. Ali dentro vivi grandes dias e grandes batalhas. Ali
dentro dei cursos de Direito e de Justiça para muitas gerações.
Lecionei 45 anos.
Que
mistérios há naquelas arcadas? A Sociedade Secreta da
Burschenschast, fundada por Júlio Frank, o maçom, que está hoje
enterrado lá dentro, ainda persiste?
Não
sei. A "Bucha" sempre foi muito poderosa no Brasil.
Ninguém podia ocupar, em nosso país, os altos postos de mando sem
pertencer a esta sociedade. Era uma sociedade muito bem estruturada,
que prestava auxílios secretos a políticos, estudantes e
funcionários.
Como
é um auxílio secreto?
Por
exemplo: um funcionário tinha a mulher doente, sem dinheiro para a
internação no hospital, e de repente recebia um envelope fechado
com a quantia necessária para cobrir todas as despesas. O
funcionário nunca ficava sabendo de onde veio o auxílio.
Ou
portas que se abriam e fechavam misteriosamente?
É.
Pessoas que estavam em desgraça eram amparadas, apoios políticos
eram decididos, sustentações eram retiradas, mas tudo no maior
anonimato.
A
"Bucha" ganhou força desde o final do século passado?
É
o que dizem.
Ela
ainda existe, não é?
Eu
não sei. Os que pertencem, ou pertenceram à "Bucha",
têm um juramento de não revelar nada.
Durante
a Semana de Arte Moderna de 1922, o senhor tinha sete anos de idade.
Por mais precoce que fosse, não poderia ser um artista de vanguarda
com sete anos. Mas sua família sempre teve ligações estreitas com
os modernistas. Como é que o senhor viveu tudo aquilo?
Em
1922 nós não estávamos no Brasil. Estávamos em Paris, já fazia
dois anos. Meu pai, o poeta Goffredo Telles, autor de
Fada nua
e
de
O mar
da noite,
tinha compromissos profissionais na
França, e ficamos num apartamento de que conservo uma doce
lembrança. Foi lá que aprendi a ler com minha avó. Eu freqüentei
um curso, que é célebre até hoje, chamado "
Cours Acmèr
".
Aprendi francês muito bem. E eu falava francês e inglês,
principalmente o inglês, melhor do que o português. Isso me fez
muito bem porque me levou diretamente aos grandes nomes da
literatura dessas duas línguas. Até hoje prefiro lê-los no
original.
E
22?
Eu
tomei conhecimento de 22 voltando da Europa. Eu era muito criança,
mas como a nossa casa...
Onde
ficava a casa de vocês?
Ficava
num lugar poético. Na esquina da rua Conselheiro Nébias com a
avenida Duque de Caxias, nos Campos Elíseos, bem perto do Palácio
do Governo. A casa infelizmente não existe mais, porque a
Prefeitura alargou a Duque de Caxias e desapropriou a casa. Foi uma
pena. Ela era rodeada de um jardim com imensas árvores, onde os
pássaros faziam ninhos... Eu me lembro também dos sabiás fazendo
ninhos nas árvores mais altas, junto ao telhado da casa. E foi
exatamente neste parque que a minha avó, Olívia Penteado, criou o
Salão de Arte Moderna, depois de 1922, onde apareceram, pela
primeira vez em São Paulo, obras de grandes artistas modernos:
Picasso, Léger, Braque, Lhote, Brancusi, Lipchitz, Foujita, Marie
Laurencin e outros. A minha família não participou diretamente da
Semana de 22, apenas estávamos muito ligados àqueles que fizeram o
movimento. Meus pais e minha avó eram amigos de todos: Tarsila do
Amaral, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Villa-Lobos, Menotti
Del Picchia, Antonieta Rudge, Cassiano Ricardo, Plínio Salgado,
Guilherme de Almeida, Anitta Malfatti, Lasar Segall, Gregório
Warchavchsky, Di Cavalcanti, Brecheret, Camargo Guarnieri. Lembro-me
da Pagu mocinha, aos pés do Oswald, Anitta Malfatti era nossa amiga
muito querida, fez até um retrato de minha mãe. Segall fez o
retrato de meu pai. Não posso esquecer Blaise Cendrars, o grande
escritor francês de origem suíça, que também pertencia ao grupo.
Nota importante desse tempo: Segall, pessoalmente, pintou as paredes
e o teto do Salão de Arte Moderna, de minha avó Olívia. Outra
nota: Villa-Lobos foi meu professor de capoeira, no gramado da
fazenda. E não é só isso. Aprendi com ele a fazer pipas. Ele
construía papagaios extraordinários, de todos os tipos, tamanhos e
formas. Havia uma pipa com 2 metros e meio de comprimento, feita com
varetas de bambu. Eu lembro que no grosso papel das pipas, todos
nós escrevemos alguma coisa. Eu escrevi:
Non plus
ultra.
Tarsila
foi minha professora de desenho. Devo ter sido um péssimo aluno.
E
essa roda cultural também se reunia na fazenda de vocês, em
Araras?
Ah,
Fazenda Santo Antônio... Nossa velha e querida fazenda, fundada em
1833, por Antônio Álvares de Almeida Lima, bisavô de minha avó
Olívia. Ele ali está enterrado, sob uma pequena campa original,
atrás do grande cruzeiro de peroba. Nessa fazenda é que aprendi a
andar e a sonhar. Ali aprendi a linguagem das árvores, das flores e
dos bichos. Aprendi o mistério do tempo e das estações do ano.
Aprendi o que é paciência. E aprendi o que é a beleza. Ali se
reuniram, muitas vezes, os mencionados amigos. Reuniam-se para
conversar, discutir, rir, passear.
A
fazenda hoje não está repartida entre os irmãos?
Sim.
Antes mesmo do falecimento do meu pai, em janeiro de 1980, ela foi
doada aos filhos, e então dividida. Cada filho ficou com uma parte.
Professor,
não há como evitar uma pergunta que muitos petistas devem estar
querendo fazer, ao ler esta entrevista: não há contradição entre
ser fazendeiro e socialista?
A
nossa fazenda é antiga, vem passando de pais a filhos desde
princípios do século passado. Eu a amo. Mas se eu tiver que
entregá-la para a vitória do socialismo, eu a entregarei sem
dúvida nenhuma. Com a vitória de minhas idéias, eu tenho muito a
perder. Mas com essa vitória, eu ganho a batalha de minha vida. Eu
sou um democrata. Eu sou um socialista. Sonho com um mundo de
justiça. Sonho com um mundo de fraternidade humana.
É
verdade que o senhor foi cotado, pelos próprios governos militares,
para redigir a Constituição depois do golpe de 1964?
Nunca!
Que idéia! A partir de 1964, tudo tenho feito para mudar o rumo dos
acontecimentos. Sempre combati os governos militares. Não os
tolero. Tentei restabelecer a democracia com um projeto de
Constituição que foi entregue ao general Costa e Silva, a pedido
dos generais da oposição, velhos amigos de outros tempos.
Quais
generais?
Não
vou dar nomes. Era gente do Rio Grande do Sul. O fato é que estes
generais conheciam as minhas idéias. Devo dizer que eu tive um
momento de esperança. Pensei que se poderia alterar o sistema de
representação democrática em nosso país. Não é preciso que eu
diga que imediatamente perdi essa esperança. Mas fui, mais de uma
vez, procurado por militares, sempre do Rio Grande do Sul, que me
pediram que expusesse por escrito essas idéias para uma nova
democracia no nosso país. Houve muita insistência. Realmente
redigi um projeto de Constituição. Eu e minha mulher fomos a
Brasília e ali fizemos a entrega, no Gabinete da Presidência.
Nunca recebi a menor resposta. O que eu verifico hoje é que eu
estava sonhando. Estava fora da realidade. Acontece que, antes
disso, o Costa e Silva tinha pedido a colaboração das
universidades para a instituição de um novo regime político no
Brasil. Tempos depois, eu requeri ao Instituto dos Advogados de São
Paulo a elaboração de um outro projeto de Constituição. O
Instituto aprovou a proposta e nomeou uma comissão, da qual eu fui
o coordenador. Trabalhamos na Faculdade de Direito durante cerca de
três meses. O projeto foi então encaminhado ao governo pelo
Instituto. Não é preciso que eu diga que este projeto morreu sem
resposta nenhuma, sem a menor manifestação do governo.
Este
projeto que foi ao Costa e Silva não tem nada a ver com aquele
outro que o senhor entregou para o Médici?
As
minhas idéias e concepções são sempre as mesmas, e são bem
conhecidas. Mas o que foi ao Costa e Silva, o primeiro, foi redigido
por mim pessoalmente, e o segundo foi elaborado por uma comissão do
Instituto dos Advogados de São Paulo. Em verdade, o que nós
queríamos era forçar o governo a convocar uma Assembléia
Constituinte, e tomar um caminho que levasse à democracia.
O
senhor já não tinha, nessa época, notícias das prisões e
desaparecimentos dentro da esquerda brasileira?
Esta
pergunta merece uma resposta solene. Em minha casa, veja bem, em
minha casa, na rua Martins Fontes, é que nós nos reuníamos à
noite, nós, professores de diversas faculdades, em sessões
secretas, para acompanhar pelo rádio, pela televisão, pelo
telefone, as notícias dramáticas de nossas próprias cassações.
Nós ficávamos ali, em volta do rádio, em volta da televisão, à
espera do pronunciamento dos nossos nomes. Muitos dos nossos
companheiros souberam de suas cassações nessas reuniões em minha
casa. Eu mesmo esperava, a qualquer momento, a minha própria
cassação. Eu me lembro de um telefonema que recebi, às quatro
horas da manhã, do próprio ministro da Justiça, Gama e Silva,
(4)
comunicando que o meu nome estava em primeiro lugar na lista de
cassações, mas que ele o havia riscado. Eu então perguntei por
que motivo ele havia riscado o meu nome. Ele disse: "Eu não
suportei, não agüentei a tristeza de vê-lo cassado". Ele
também era professor da Faculdade de Direito e era meu amigo desde
nossos tempos de juventude. Portanto, eu não só tinha o
conhecimento da repressão política como era alvo dela. Vou contar
um caso para vocês terem bem idéia da situação em que vivíamos.
Eu estava exercendo a diretoria da Faculdade, interinamente, quando
fui convocado pelo Tribunal Militar para prestar depoimento no
processo movido contra Caio Prado Júnior. Fui prestar meu
depoimento e aproveitei a oportunidade para fazer a biografia de
Caio Prado, mostrando quem era ele, coisa que os juízes
desconheciam completamente. Terminei o depoimento dizendo que nenhum
de nós, nenhum dos juízes, dos promotores e nem eu mesmo, nenhum
de nós tinha, nem de longe, a importância intelectual de Caio
Prado. Pela sua obra, pelo alcance internacional de suas idéias,
ele era muitíssimo mais importante do que todos aqueles que estavam
sentados ali, em volta daquela mesa de juízes fardados. Eu disse
finalmente que seria uma injustiça de repercussão internacional
qualquer condenação de um homem como aquele. Ele era livre-docente
da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. E eu só não
fui preso porque a multidão de acadêmicos do Largo rapidamente me
envolveu e me salvou.
Em
1968, a Faculdade foi ocupada pelos estudantes. São sempre
lembrados aqueles que apoiaram a ocupação, entre esses alguns
professores da casa, como o senhor mesmo.
Eu
estava ao lado deles. De alma, de coração. Sempre estive ao lado
deles. Durante a ocupação, organizamos cursos sobre os rumos
futuros da Universidade e da Faculdade. Nós nos reuníamos no
Centro Acadêmico XI de Agosto, no pátio, na escadaria. Éramos
sete ou oito professores: Cesarino Júnior, Ignácio Mesquita, Rocha
Barros, Canuto Mendes de Almeida e outros professores. Estávamos
ali constantemente, tínhamos entrada e saída livre no prédio
ocupado. Eu me lembro que quando isso começou, bem no começo,
estava em curso uma espécie de reunião dos professores. Havia uma
grande agitação docente. O diretor era exatamente esse...
Não
precisamos pronunciar esse nome. Eu já vi, numa reunião com
estudantes, o senhor evitando pronunciá-lo
Pois
é, ele mesmo.
(5)
Triste figura, de quem não quero
falar. Lembro-me que eu lhe disse: "Olha, se os senhores
quiserem sair, eu os acompanho até lá embaixo." Ele me
respondeu, profundamente irritado: "Você está louco, nós
vamos ser lapidados!" Eu lhe disse: "Não, se eu for com
os senhores, ninguém será lapidado." E continuei: "Vou
sozinho, agora mesmo vou falar com os estudantes." Na qualidade
de diretor da Faculdade, ele exclamou: "Não, não vá! Você
vai ser morto lá embaixo!". Sorrindo, saí da sala, desci e
conversei com os estudantes, meus eternos amigos. A mobilização
era pacífica, totalmente desarmada. Conversei longamente com os
acadêmicos e combinei a retirada dos professores. E assim se
encerrou este episódio.
E
nem uma vaiazinha?
Olha,
eu não me lembro de vaia não.
Pois
então: o senhor era um participante da ocupação histórica da
Faculdade de Direito em 1968; estava permanentemente ameaçado de
ser cassado e tinha o conhecimento da repressão política. Ao mesmo
tempo, no entanto, levava um projeto de Constituição ao General
Médici. Parecem atitudes opostas. Se o tempo voltasse, o senhor
agiria da mesma forma?
Se
houvesse novamente ditadura militar?
Sim.
Olha,
se houver ditadura estarei na primeira linha para combatê-la.
Não,
professor, disso ninguém duvida. A pergunta é outra: o senhor
entregaria novamente projetos de Constituição para um general?
Esteja
quem estiver na Presidência da República, inundarei sempre o país
com minhas proclamações democráticas. Não será um general na
Presidência que irá me desestimular na minha pregação. Eu tinha
a esperança de que meus projetos nas mãos do general-presidente
pudessem ter o efeito de mísseis atirados contra a ditadura. Vã
esperança. Mas iniciativa válida.
O
senhor fala muito em fraternidade e dialogou até com os militares,
sem se arrepender. Sua vida parece perseguir o bem, se me permite
dizer assim. O senhor acredita em Deus?
Uniforme
é o fenômeno da vida. A célula de uma ameba e a célula de um
homem são indústrias muito semelhantes. No protozoário, na
árvore, nas flores, na lagarta, na andorinha, no meu cachorrinho,
em Beethoven; a oficina primordial da vida é sempre a mesma. Somos
todos irmãos, nós, os vivos. Somos irmãos, porque somos
biologicamente semelhantes. "Todos são iguais perante a
lei", diz o Direito. Tal é o mandamento jurídico mais
sublime. Com realismo científico, logo após as descobertas
modernas sobre a engenharia uniforme de todas as células,
afirmamos, extasiados, que todos nós somos irmãos de todos os
seres vivos. Como irmãos, somos criaturas de um mesmo pai. E não
seria de surpreender que, em meio do deslumbramento que nos ilumina,
nossos lábios se ponham a murmurar as palavras que nos ensinaram
quando éramos crianças: "Pai nosso que estais nos
céus...".
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