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1.
Terrorismo nos Estados Unidos: nova face da violência
Um
ataque terrorista destruiu dois edifícios, conhecidos como as
torres gêmeas, os mais altos do mundo, na cidade de Nova Iorque.
Isso aconteceu em 11 de setembro de 2001 e, graças à alta
tecnologia de que dispõem os Estados Unidos, foi transmitido pela
televisão, dando ao mundo a possibilidade de ver um dos dois
aviões atirados contra os edifícios atingir o seu alvo, bem no
estilo de muitos filmes de aventura norte-americanos. Descontados os
exageros das informações quanto ao número de mortos e pondo de
lado vários aspectos que a censura imposta pelo governo dos Estados
Unidos aos meios de divulgação não permitiu que ficassem claros
- como o ataque simultâneo a edifícios do Pentágono, em
Washington, e a disseminação de "antraz" no território
norte-americano, que seria expressão de um terrorismo
bacteriológico, fatos referidos nos primeiros dias após o ataque
terrorista e depois completamente omitidos -, o que resta já é
suficiente para se ter um fato novo de grande relevância. Os
Estados Unidos, maior potência bélica e econômica do mundo,
possuindo os mais sofisticados dispositivos de vigilância e
controle, incluindo satélites artificiais, uma rede de radares e a
mais moderna parafernália para detectar a aproximação de corpos
estranhos ou indesejáveis e capaz de transmitir informações
extremamente precisas e minuciosas, com espantosa velocidade, a
todos os pontos da terra; essa terrível superpotência não era
invulnerável, como acreditavam os norte-americanos e quase todo o
mundo, com exceção, evidentemente, dos terroristas que provaram o
contrário.
Esse
foi um dado novo, extremamente significativo, que surpreendeu o
mundo e despertou nas autoridades e no povo dos Estados Unidos um
misto de sentimentos, incluindo surpresa e revolta pela agressão
dentro de sua própria casa, indignação pelo atrevimento dos
agressores, decepção porque acreditavam que os milhões de
dólares gastos em armamentos e sofisticado aparato de segurança
garantiriam sua absoluta invulnerabilidade e impunham temor a todos
os outros povos da terra, e tristeza autêntica, em parte da
população norte-americana, pelas vítimas, muitas delas pessoas
modestas que haviam emigrado para os Estados Unidos na esperança de
uma vida melhor. A par disso, o ataque terrorista despertou o medo,
o terror, como pretendiam os autores da violência, um terror que
ficou visível nos atos das autoridades e no comportamento da
população, um terror que inspirou a adoção de medidas
arbitrárias e violentas contra todos os que, supostamente, poderiam
ter alguma ligação, parentesco, semelhança ou provável
identidade de raça, de cor, de crença, de língua ou de etnia com
possíveis terroristas presentes e futuros.
Estranhamente,
poucas horas depois do ataque terrorista, e sem que houvesse
qualquer sinal emitido pelos culpados, reivindicando ou admitindo a
autoria, vangloriando-se do feito ou tentando justificá-lo, o
governo norte-americano já anunciava ao mundo, com riqueza de
pormenores, a identidade do chefe da organização terrorista
responsável, Al-Qaeda, divulgando o nome, a foto e particularidades
da vida e das características desse chefe, Osama Bin Laden, e
relatando pormenores da preparação do atentado e da identidade dos
executores da ação violenta. Como depois foi revelado por
jornalistas e pessoas conhecedoras de fatos e dados importantes
ligados a esse personagem, a família Bush, incluindo o avô e o pai
do atual presidente norte-americano (o ex-presidente George Bush),
há muito tempo tem ligações muito estreitas com magnatas do
petróleo, entre os quais estão o próprio Osama Bin Laden e sua
família. Apesar de reiteradas informações a esse respeito,
divulgadas pela imprensa de vários países e já registradas em
alguns livros e artigos, nem o atual presidente Bush nem qualquer
órgão do governo dos Estados Unidos fez qualquer pronunciamento,
para esclarecer, negar ou confirmar aquele relacionamento, que, a
serem verdadeiras as informações divulgadas, envolvia interesses
comuns na indústria petrolífera (a esse respeito veja-se o livro
A
fortunate son: George W. Bush and the making of an american
president,
de Steve Hatfield, citado por Frei Beto em
impressionante artigo publicado no jornal "O Estado de S.
Paulo", edição de 31/10/2001).
A
partir de uma acusação ou suposição, até agora baseada apenas
em afirmações de autoridades norte-americanas, sem apoio em
qualquer prova, os Estados Unidos desencadearam uma ação de guerra
extremamente violenta contra o Afeganistão, afirmando que Bin Laden
estaria escondido em algum ponto, não precisado, do território
daquele país. É oportuno lembrar que há não muito tempo o
governo norte-americano forneceu armamentos e deu treinamento a
grupos do mesmo Afeganistão, para que agissem contra a União
Soviética a partir do território afegão. Esse hábito de tratar
aquele país como território não sujeito a uma soberania e
disponível para operações de guerra talvez explique, em parte, a
desenvoltura com que os Estados Unidos invadiram o Afeganistão por
terra e ar, com homens, tanques e armamento pesado, lançando bombas
e foguetes contra populações civis pobres e indefesas, destruindo
casas e dizimando famílias, semeando terror, provocando morte e
destruição com brutalidade impensável num mundo civilizado.
2.
Repercussão do terrorismo e do pretexto "antiterrorista"
Apesar
da gravidade do ato terrorista de 11 de setembro de 2001, e de sua
influência no comportamento do Estado norte-americano em seu
relacionamento com o resto do mundo, é evidente exagero afirmar que
o ataque terrorista às torres gêmeas de Nova Iorque modificou a
relação de forças no mundo ou mudou a história da humanidade.
Não é preciso qualquer esforço para verificar que a posição e o
comportamento político dos Estados ou grupos de Estados mais
poderosos do mundo, como China, Japão, Arábia Saudita e União
Européia e seus integrantes, por exemplo, não sofreram qualquer
modificação significativa. O que realmente mudou foi o sentimento
de invulnerabilidade dos Estados Unidos, fato que influiu em seu
quadro político interno e teve reflexos graves, muito negativos, em
seu comportamento internacional. Mas mesmo em relação a isso não
se pode dizer que tenha havido uma inovação, pois apenas foi mais
acentuado o comportamento que já vinha sendo adotado pelos Estados
Unidos.
O
recente crescimento do militarismo não afetou de modo substancial
as relações dos Estados Unidos com a América Latina. Os países
latino-americanos são muito dependentes dos Estados Unidos em
termos econômicos e, por esse motivo, nenhum governo da América
Latina manifesta oposição ou mesmo simples restrição às
arbitrariedades e violências cometidas pelos Estados Unidos. Um
exemplo claro dessa submissão foi a atitude do governo brasileiro
perante a deposição do embaixador do Brasil, Bustani, da
presidência da Organização para a Proibição de Armas Químicas
(OPAK), mediante chantagem e coação do governo norte-americano. O
chanceler brasileiro declarou à imprensa que o Brasil não iria
entrar em conflito com os Estados Unidos para defender seu
embaixador e por isso nem sequer condenou a imoralidade da medida.
Por outro lado, as manifestações do povo brasileiro, praticamente
unânimes, contra as agressões norte-americanas no Afeganistão,
não permitem que o governo se manifeste apoiando os Estados Unidos.
Esse mesmo quadro se repete em toda a América Latina, onde os
sentimentos anti-americanos cresceram muito nos últimos meses.
Em
relação ao Brasil, pode-se dizer com segurança, tendo por base o
que tem sido dito e publicado nos grandes órgãos de imprensa, em
conferências, debates públicos e reuniões políticas ou
científicas em que o tema tem sido abordado, que há evidente
rejeição da injustificada e injustificável agressão ao
Afeganistão e ao seu povo, praticada pelos norte-americanos sob
pretexto de "guerra ao terrorismo". De modo geral existe
certa cautela nos pronunciamentos, porque as pessoas temem que uma
condenação muito forte dos Estados Unidos possa ser interpretada
como apoio ao terrorismo. Mas, ainda assim, não têm sido raras as
condenações expressas e veementes daqueles atos que muitos já
qualificaram como ação criminosa e irracional dos
norte-americanos. Na realidade, tem sido unânime a condenação do
ato terrorista que destruiu as torres e matou ou feriu centenas de
pessoas em Nova Iorque, mas até agora ninguém publicou ou falou
alguma coisa em defesa da atitude norte-americana no Afeganistão,
nem a favor do tratamento brutal a que foram submetidos os
prisioneiros transportados para a base norte-americana de Guantanamo.
Sempre
que há oportunidade, a guerra promovida pelos Estados Unidos é
qualificada como errada, injusta e inadequada, porque está muito
evidente, para qualquer pessoa de boa-fé e imparcial, que as
populações civis, vítimas da guerra, são pessoas pobres e
indefesas que sofrem a destruição de suas casas modestas, além da
morte de muitos familiares e amigos, sem terem tido qualquer
participação nos atos terroristas de 11 de setembro. O governo
brasileiro tem mantido atitude ambígua, não defendendo nem
condenando as ações norte-americanas, o que pode ser interpretado
como reconhecimento de que o povo brasileiro não aprova a guerra e,
ao mesmo tempo, demonstração de que o governo brasileiro teme
contrariar os norte-americanos, provavelmente pela excessiva
dependência do Fundo Monetário Internacional e dos interesses
econômicos de poderosas empresas sediadas nos Estados Unidos.
3.
"Guerra" do Afeganistão: um ato de agressão injusto
Toda
guerra é, em princípio, um momento de irracionalidade, de
substituição de todos os avanços conquistados, às vezes
penosamente, durante a longa marcha civilizatória da humanidade
pela força bruta, é um momento de retorno à barbárie. Por esse
motivo, quando no século dezenove as guerras se tornaram mais
"tecnológicas", ficando mais fácil matar o inimigo à
distância, e quando os meios de divulgação já permitiam a
difusão mais ampla de informações sobre os males causados pela
guerra, começou um esforço de homens de boa vontade, no sentido de
estabelecer limites às ações de guerra. Foi assim que se
desenvolveu o chamado "Direito de Genebra", que tem seu
ponto de partida com a celebração de um acordo multilateral,
conhecido como Convenção de Genebra, em 1864, sendo esse um marco
fundamental no desenvolvimento do Direito Internacional
Humanitário. Depois disso vieram diversos tratados e acordos
internacionais, fixando limites ético-jurídicos para as
violências em ações de guerra, tratando da proteção devida às
populações civis envolvidas numa circunstância bélica e, além
disso, colocando as exigências mínimas quanto ao tratamento a ser
dispensado aos prisioneiros de guerra, para que se preserve a
dignidade humana.
A
síntese das exigências postas em defesa da dignidade humana e da
civilização é uma frase muito bem destacada por Christophe
Swinarski em seu livro
Direito internacional humanitário
(São Paulo, Revista dos Tribunais, 1990), quando informa que consta
do preâmbulo da Declaração de São Petersburgo, de 1868, o
seguinte princípio: "as necessidades da guerra devem-se deter
em face das exigências da humanidade".
Examinadas
do ponto de vista jurídico, considerando não só o Direito
Internacional Humanitário, mas todo o conjunto de princípios e
normas, costumeiras e escritas, que rege as relações entre os
povos civilizados, pode-se concluir que as ações militares
norte-americanas, geralmente referidas como "a guerra no
Afeganistão", não têm qualquer justificativa jurídica e se
caracterizam como ato de agressão, pois o Estado do Afeganistão
não atacou nem ameaçava atacar os Estados Unidos. Além disso, é
um ato de barbárie, pois o que se vê é a maior potência bélica
do mundo usando armamento sofisticado para ataques maciços e
indiscriminados, destruindo cidades e vilas, matando milhares de
pessoas desarmadas e indefesas, que jamais tiveram participação em
qualquer ação política externa, armada ou desarmada. As
violências praticadas contra o povo do Afeganistão caracterizam
crime contra a humanidade, além de também ocorrerem ali crimes de
guerra, como definidos nos tratados vigentes. As ações de guerra
levadas a efeito no Afeganistão representam a negação de todos os
avanços da civilização no relacionamento entre os povos. É
praticamente certo que tão logo seja instalado o Tribunal Penal
Internacional haverá denúncias, muito bem fundamentadas, contra os
mentores da guerra norte-americana no Afeganistão, pois existe
prova abundante da prática de crimes e muitos dos principais
responsáveis têm identidade conhecida.
Por
tudo isso e por tudo o mais que tem sido mostrado pela televisão,
por jornais e revistas, com fotos impressionantes mostrando a
destruição e o massacre de populações, e ainda pelo depoimento
de pessoas que estiveram na região, inclusive por informações
oriundas de fontes norte-americanas, não há qualquer possibilidade
de se admitir que a guerra do Afeganistão seja uma "guerra
justa". Antes de mais nada, até mesmo a expressão
"guerra" é inadequada, pois o que se tem no Afeganistão
é uma forte e violenta ação armada promovida pelo Estado
norte-americano, sem que exista um Estado inimigo. As vítimas das
ações não são pessoas ou grupos armados, não há confronto
entre forças inimigas, não se podendo falar em direito de defesa
contra o Afeganistão quando nem os Estados Unidos ousam apresentar
o Afeganistão como Estado agressor atual ou potencial. Mais do que
tudo, até agora não foi apresentado qualquer motivo sério, com
real fundamento, que justificasse as ações de guerra
norte-americanas em território afegão. Assim, portanto, fica
completamente excluída a hipótese de se admitir que esteja
ocorrendo uma guerra justa.
4.
Motivação das guerras norte-americanas: armas e petróleo
As
guerras norte-americanas dos últimos dez anos, incluindo Iraque,
Kosovo e Afeganistão, não têm as características das guerras
tradicionais contra um Estado inimigo. Não se trata de guerras
defensivas contra Estados que estivessem ou estejam ameaçando a
soberania, a independência ou a liberdade dos Estados Unidos ou que
tivessem praticado ou estejam praticando atos de agressão contra o
Estado norte-americano. Não são também guerras motivadas pela
disputa entre dois sistemas políticos fundamentalmente opostos,
como foi a guerra ao nazi-fascismo e poderia ter sido uma guerra
contra a União Soviética. As guerras norte-americanas dos últimos
dez anos são, em parte, mas indiretamente, uma conseqüência do
desaparecimento da União Soviética. Livres da necessidade de
evitar o perigo soviético e de apresentar ao mundo uma imagem de
justiça e respeito, para angariar mais aliados, os Estados Unidos
sentiram-se livres para agir agressivamente em favor de seus
interesses. O exame atento das circunstâncias mostra sem
dificuldade que são duas as motivações básicas dessas guerras: o
petróleo e a indústria armamentista.
Os
Estados Unidos são muito dependentes do petróleo para a
continuidade de suas atividades produtivas e para a manutenção de
seu estilo de vida, o
american way of life
. Embora tendo suas
próprias reservas petrolíferas, os Estados Unidos estão muito
longe da auto-suficiência em petróleo. Por esse motivo existe
sempre o temor de uma suspensão inesperada e substancial do
abastecimento por fontes externas, o que seria terrivelmente
desastroso para a economia norte-americana e para a continuidade das
atividades normais de praticamente todo o povo.
Ao
que tudo indica, os estrategistas norte-americanos concluíram que o
Iraque é o Estado mais vulnerável, entre os que dispõem de muito
petróleo em seu território, e por esse motivo foi considerado o
caminho mais fácil para que os norte-americanos tomem posse de
imensas reservas petrolíferas. Por isso foi feita a primeira guerra
contra o Iraque, que resultou em fracasso norte-americano, apesar da
utilização de forte e pesado aparato de guerra. A primeira
tentativa de se apoderarem do petróleo iraquiano foi malsucedida,
mas continua a convicção de que seja esse o melhor caminho e daí
o anúncio que vem aparecendo agora com insistência na imprensa,
oriundo de fontes oficiais norte-americanas, de que está sendo
preparada uma grande investida contra o Iraque, provavelmente para o
início do próximo ano. Isso desmoraliza de uma vez a pálida
tentativa feita por algumas autoridades norte-americanas, no sentido
de ligar o Iraque aos atos terroristas de 11 de setembro.
Na
mesma linha da preparação de uma nova ofensiva bélica contra o
Iraque se inscreve a recente atitude imoral do governo dos Estados
Unidos, coagindo e corrompendo membros da Organização para a
Proibição de Armas Químicas (OPAK), para que tirassem da
presidência o diplomata brasileiro José Maurício Bustani, eleito
regularmente para o cargo pelos membros da Organização e cujo
mandato estava em curso. Apesar de vagas alegações de falhas na
administração da Organização para a Proibição de Armas
Químicas, o exame dos argumentos norte-americanos e das
circunstâncias, feito por analistas especializados e profundos
conhecedores dos fatos, deixou mais do que evidente o motivo real da
deposição de Bustani, afinal consumada. O fator determinante da
investida dos Estados Unidos contra o diplomata brasileiro nada teve
a ver com o desempenho administrativo: foi o fato de que ele estava
fazendo gestões, com perspectivas de êxito, para que o Iraque
passasse a fazer parte da Organização para a Proibição de Armas
Químicas e, em conseqüência, se sujeitasse ao programa de
inspeção e destruição de armas químicas. Desse modo, seria
eliminado o pretexto que vem sendo usado pelos norte-americanos para
tentar justificar nova agressão ao Iraque, que é a existência de
um vasto arsenal de armas químicas.
Coloca-se
ainda na mesma linha da motivação pelo petróleo o apoio dado
pelos Estados Unidos ao recente e fracassado golpe na Venezuela,
tentando depor um presidente constitucional eleito pelo povo. O
fracasso do golpe, pelo modo como ocorreu, e a prisão de golpistas
que assumiram o poder imediatamente e se expuseram demais porque se
acreditavam vencedores, possibilitou a obtenção de provas
irrefutáveis do envolvimento norte-americano. Também nesse caso
muitas provas vieram de fontes norte-americanas, ligadas aos mais
altos níveis do governo dos Estados Unidos, que, assim, não teve
como negar o apoio aos golpistas, mas tentou amenizar sua culpa,
dizendo que só dera apoio à mudança do governo por meios
constitucionais. A Venezuela não estava agredindo ou ameaçando os
Estados Unidos, nem remotamente. Qual o motivo do apoio
norte-americano à deposição do presidente constitucional
venezuelano? A resposta a essa indagação não exige qualquer
esforço. Iraque e Venezuela têm algo em comum: grandes reservas de
petróleo. Não se deve esquecer, afinal, que o ex-presidente Bush
tinha estreita ligação com o setor petrolífero, que lhe deu
sustentação e, obviamente, esperava algo em troca. O esquema
ganhou novo alento e teve continuidade com Bush filho.
Ao
lado do petróleo, como fator de motivação para as mais recentes
guerras norte-americanas, existe o grande interesse da indústria de
armamentos. Com a eleição de Bush, simplório e inexperiente, os
tradicionais "falcões" ligados ao complexo
industrial-militar tiveram enorme facilidade para se apossarem de
posições-chaves e para ditar a política externa dos Estados
Unidos. Como foi amplamente noticiado pela imprensa, logo depois de
11 de setembro as ações das indústrias de armamentos tiveram alta
excepcional na Bolsa de Nova Iorque e se colocam hoje entre os
investimentos mais atraentes. É interessante notar que o ato
terrorista foi altamente benéfico sob vários aspectos, além da
valorização das ações na Bolsa de Valores. Os gastos
norte-americanos com armamentos foram ampliados e o mesmo fenômeno
se verificou em vários países cujos governos são fortemente
influenciados pelos Estados Unidos.
Um
exemplo disso é o que vem ocorrendo no Brasil, que, sabidamente,
tem grande parte da população precariamente assistida ou
completamente desassistida quanto a necessidades fundamentais, como
saúde, educação e moradia, embora a Constituição diga que o
direito a esses bens é direito de todos e dever do Estado. O
governo não cumpre esse dever constitucional sob alegação de
falta de recursos. Entretanto, segundo informação do jornal
"O Estado de S. Paulo" (edição de 5 de maio de 2002), o
Brasil acaba de adquirir um super porta-aviões, passando a fazer
parte do "clube restrito" (expressão usada pelo jornal)
dos possuidores dessa preciosidade, que tem custo e manutenção
elevadíssimos e que, evidentemente, não é uma prioridade do povo
brasileiro. Ainda segundo o mesmo jornal, "em todo o mundo
apenas oito marinhas mantêm porta-aviões: Estados Unidos,
Grã-Bretanha, França, Rússia, Itália, Espanha, Índia e
Brasil". Além desse tremendo desperdício, que só é bom para
a indústria de armamentos e para os que se beneficiam dessas
transações, informa ainda o jornal que para ter aviões que não
destoassem do conjunto, o Brasil adquiriu um certo tipo de avião
norte-americano muito moderno, tendo comprado "no Kuwait 23
unidades do pequeno, robusto e ágil subsônico americano". É
estranho que o Brasil tenha comprado no Kuwait aviões
norte-americanos, o que talvez se explique pelo fato de que o
Kuwait, que é uma das "potências petrolíferas" do
mundo, faça parte de um consórcio "petróleo-armas".
Retomando
a análise das recentes guerras promovidas pelos Estados Unidos, é
importante ressaltar que um ponto comum nas guerras do Iraque,
Kosovo e Afeganistão é que nos três casos não havia guerra
declarada e o agressor era o mesmo. Além disso, como já foi
assinalado, nos três casos houve a forte influência da indústria
de armamentos, interessada em que haja guerra, não paz. Um ponto
diferenciador em relação ao Afeganistão é o pretexto do combate
ao terrorismo com amplitude mundial. Vários países que enfrentam
no seu interior o problema de grupos terroristas, como a Inglaterra
e a Espanha, aproveitaram-se do pretexto para intensificar suas
ações antiterroristas no plano interno e por esse motivo
preferiram não condenar as violências norte-americanas. Outros
países, como o Japão e os próprios Estados Unidos, aproveitaram o
pretexto da universalidade do terrorismo para aumentar seus gastos
militares. Esse é um ponto só relativamente diferenciador, pois em
todos esses casos está presente o interesse da indústria
armamentista, devendo-se ainda atentar para o fato de que o pretexto
do combate ao terrorismo facilitou o avanço do militarismo no
mundo.
Desse
conjunto de fatos e circunstâncias pode-se extrair uma conclusão
segura quanto a fatores que estão na base da motivação das
guerras norte-americanas dos últimos dez anos: petróleo e venda de
armamentos. O terrorismo, essencialmente imoral, foi bom para o
mundo dos negócios e forneceu pretexto para novas agressões
armadas. É preciso denunciar e combater o terrorismo, seja ele
praticado por Estados ou por grupos organizados, mas é preciso não
perder de vista que o terrorismo está longe de ser o grande
problema da humanidade, a causa de toda a violência, o principal
obstáculo para a conquista da paz.
5.
Os verdadeiros desafios para a busca da paz
O
mundo está vivendo em situação de grave desequilíbrio, motivado,
substancialmente, por tremendos desníveis econômicos e pelas
discriminações que os acompanham, aumentando cada vez mais o
número de miseráveis, de excluídos, de pessoas sem qualquer
perspectiva. Essa é a matéria-prima para a deterioração do
tecido social e para a implantação da desordem ou de "ordens
marginais", como ocorre ostensivamente, por exemplo, na
Colômbia e também ocorre, embora com menor visibilidade, em quase
todo o mundo, inclusive nos países mais ricos. A violência urbana,
o crescimento do crime organizado, o aparecimento de uma
criminalidade rica, como os "criminosos de colarinho
branco" e os traficantes de drogas, o aumento do número de
desempregados, tudo isso é agravado pela falta absoluta de
perspectivas para os jovens.
Os
dualismos que se colocam hoje estão ligados às condições
econômico-sociais: concentração da riqueza ou justiça social;
tentar conter a desordem e a violência por meio de maior repressão
- o que só irá gerar mais violência -, ou, ao contrário
disso, atacar as verdadeiras causas da violência, indo além dos
belos discursos e passando a ações concretas, destinando uma parte
da riqueza ao oferecimento, em todos os povos, do mínimo exigido
pela dignidade humana. Existe riqueza e pobreza no norte e no sul,
as categorias "direita" e "esquerda" estão
diluídas. O que há de comum é o distanciamento cada vez maior
entre ricos e pobres, seja entre Estados ricos e pobres, seja entre
os indivíduos do mesmo Estado.
Tendo
em conta a evidente e muito acentuada superioridade econômica e
militar dos Estados Unidos e considerando a pouca ou nenhuma
importância dada pelos norte-americanos ao direito nas relações
internacionais, há quem se interrogue sobre a utilidade de se
continuar falando em Direito Internacional, na busca de uma ordem
harmônica e pacífica. Na verdade, o processo civilizatório da
humanidade já caminhou muito e nessa caminhada acumulou-se
experiência e ficou provada a importância do Direito para a
convivência respeitosa e digna dos povos do mundo, mas muitas vezes
ficou demonstrado que o "egoísmo essencial" de alguns
seres humanos, de que falava Kant, supera a racionalidade e a
consciência ética. Apesar dos grandes avanços científicos e
tecnológicos, a barbárie ainda está presente e tem seus momentos
de triunfo. É o que assinala, com grande ênfase, Goffredo Telles
Junior, reconhecendo o lado negativo, mas concluindo que na própria
humanidade já existe o germe da reação humanista. Diz o eminente
mestre, professor emérito da Universidade de São Paulo:
"A
guerra ainda grassa no mundo. Ainda explode, em casos extremos,
quando Estados - ou, mesmo, grandes agrupamentos humanos -
promovem, para escândalo e revolta das Nações em geral, a
violação dos altos princípios éticos da humanidade - como a
soberania, a liberdade, a igualdade, a independência e a cidadania
-, que são apanágio de nossa civilização e das democracias
modernas. Mas a consciência e a cultura de nossos dias anseiam pelo
banimento da guerra em toda a face da Terra" (
Iniciação na
ciência do direito
, São Paulo, Saraiva, 2001, p. 245).
Agora,
mais do que nunca, tem sentido e é necessário falar de Direito
Internacional. Os precedentes históricos da Paz da Westphalia, do
Congresso de Viena e da Conferência de São Francisco mostram que a
busca de equilíbrio e de convivência pacífica passa,
necessariamente, pelo Direito. Um dado novo, muito importante, é o
substancial aumento da consciência de direitos de todos os povos,
especialmente das camadas mais injustiçadas. Por esse motivo,
embora haja muitas derivações para a criminalidade, em grande
parte pela falta de outras perspectivas, verifica-se também uma
extraordinária multiplicação de grupos sociais e comunitários
organizados, reivindicando direitos, sobretudo os direitos
econômicos, sociais e culturais. O apoio a esses grupos, a
denúncia das injustiças, a exigência de aplicação efetiva do
Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais:
esse é o caminho para o combate autêntico à violência e para a
eliminação das injustiças, condição necessária para dar
consistência aos ideais de paz.
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